Domingo, Setembro 06, 2009

ESCREVESCREVE

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Quarta-feira, Agosto 26, 2009

FOLHA DE S. PAULO

Minha coluna da semana na Folha de S. Paulo, Fim de Jogo, e a pergunta que coça:

O que fazemos? Andamos a esmo, pela orla, pela web, espalhando uma insatisfação que não pode mais ser reparada.


escrito às 2:17 PM por giannetti




A ESTRELA SOBE

(por que se encontram nas ruas criaturas às quais, por um sorriso, um piscar de olhos, uma inclinação de cabeça, nos sentimos imediatamente ligados, confundidos os destinos e os desejos, e que passam, e em noventa por cento dos casos, nunca mais vemos?) - Marques Rebelo.

obrigada, bela <3


escrito às 2:14 PM por giannetti




Terça-feira, Agosto 25, 2009

IN THE END



vlw jay <3

we all bear the scars
yeah, we all feign a laugh
we all cry in the dark
get cut off before we start

and as your first act begins
you realise they're all waiting
for a fall, for a flaw, for the end

and there's a past stained with tears
could you talk to quiet my fears
could you pull me aside
just to acknowledge that i've tried

as your last breath begins
contently take it in
cause we all get it in
the end

and as your last breath begins
you find your demon's your best friend
and we all get it in
the end

escrito às 12:31 AM por giannetti




Domingo, Agosto 23, 2009

CONTO PARA O DOMINGO

O quintal compartilhado. Não revisado.

Ainda é válido, mesmo que tenha acontecido quando eu estava inconsciente. É duplamente válido, porque a mente consciente muitas vezes comete erros, se deixa seduzir pela pessoa errada. Mas lá no fundo do poço, onde não há luz, apenas água de mil anos, um homem não tem motivos para cometer erros. Deus diz faça e você faz. Ame-a, e assim é. Ele é meu vizinho. Ele descende de coreanos. Seu nome é Vincent Chang. Ele não treina hapkido. Quando você diz a palavra “coreano”, alguns pensam automaticamente no instrutor sul-coreano de Jackie Chan, o grão-mestre Kim Jin Pal; eu penso em Vincent.

Qual é a coisa mais apavorante que já aconteceu com você? Tem a ver com um carro? Aconteceu num barco? Foi um animal? Se você respondeu sim a qualquer uma dessas perguntas, não me surpreendo. Carros batem, barcos afundam e animais são mesmo sinistros. Por que não faz um favor a si mesmo e fica longe dessas coisas?

Vincent tem uma mulher chamada Helena. Ela é grega e seu cabelo é louro. Pintado. Eu ia ser gentil e não mencionar que era pintado, mas afinal não acho que ela se importe que alguém saiba. Na verdade, acho que ela está querendo fazer o gênero loura-falsa, com as raízes aparecendo. E se ela e eu fôssemos amigas íntimas? E se eu lhe pedisse roupas emprestadas e ela dissesse Fica melhor em você, é um presente? E se ela me telefonasse aos prantos e eu tivesse que ir vê-la e acalmá-la na cozinha, e Vincent tentasse entrar na cozinha e nós disséssemos Fique de fora, a conversa é só de mulheres!? Vi algo parecido acontecer na televisão; aquelas duas mulheres estavam falando sobre alguma roupa íntima roubada e um homem entrou e elas disseram, Fique de fora, a conversa é só de mulheres! Uma das razões pelas quais Helena e eu nunca seríamos amigas íntimas é porque tenho quase a metade da altura dela. As pessoas tendem a se manter no grupo da sua altura porque é melhor para o pescoço. A não ser que tenham um envolvimento romântico, caso em que a diferença de altura é sexy. Então significa: Estou disposta a vencer essa distância para chegar até você.

Se você está triste, pergunte a si mesma por que está triste. Então pegue o telefone, ligue para alguém e conte a ele ou a ela a resposta à pergunta. Se não conhecer ninguém, ligue para a telefonista e lhe diga. A maioria não sabe que a telefonista tem que ouvir, é lei. Da mesma maneira, o carteiro não tem permissão para entrar na sua casa, mas você pode falar com ele num local público por até quatro minutos ou até que ele queira ir embora, o que acontecer primeiro.

Vincent estava no quintal compartilhado. Vou falar a respeito desse quintal. Ele é compartilhado. Se a gente olha para ele, pensa que é só o quintal de Helena e Vincent, porque a porta dos fundos deles abre para lá. Mas, quando eu me mudei, o senhorio me disse que aquele quintal era dos dois apartamentos, o de cima e o de baixo. O meu é o de cima. Ele disse, Não fique constrangida por usá-lo, porque você paga tanto aluguel quanto eles. Só não estou muito certa de ele ter dito a Vincent e Helena que aquele era um quintal compartilhado. Tentei marcar o terreno deixando às vezes alguma coisa lá embaixo, como meus sapatos, ou uma vez em que deixei uma bandeirinha de Páscoa. Tentei também passar exatamente o mesmo tempo que eles no quintal. Desse jeito eu sei que cada um de nós recebe o que é justo. A cada vez que os vejo lá fora, faço um tracinho no calendário. Quando o quintal volta a ficar vazio, me sento ali. Então faço uma cruz no tracinho. Às vezes me atrapalho e tenho que ir me sentar ali uma porção de tempo no final do mês, para tirar o atraso.

Vincent estava no quintal compartilhado. Vou falar de Vincent. Ele é um exemplo do Novo Homem. Você deve ter lido o artigo a respeito dos Novos Homens na revista True do mês passado. Os Novos Homens estão conscientes de seus sentimentos, até mais do que as mulheres, e os Novos Homens choram. Os Novos Homens querem ter filhos, desejam ardentemente dar à luz, então algumas vezes, quando choram, é por não poderem; simplesmente não há lugar por onde um bebê possa sair. Os Novos Homens só dão e dão e dão. Vincent é assim. Uma vez eu o vi fazendo uma massagem em Helena no quintal compartilhado. Isso é meio irônico, porque é Vincent quem precisa de massagem. Ele tem uma forma branda de epilepsia. Meu senhorio contou isso quando me mudei, por medida de segurança. Os Novos Homens são muitas vezes um pouco frágeis e, além disso, Vincent trabalha como diretor de arte, e isso é muito Novo Homem. Ele me disse isso um dia quando nós dois saímos do prédio ao mesmo tempo. Ele é diretor de arte de uma revista chamada Punt. Essa é uma coincidência estranha, porque eu sou supervisora de seção numa gráfica, e nós às vezes imprimimos revistas. Não imprimimos Punt, mas imprimimos uma revista com um nome parecido, Positive. Na verdade, ela é mais uma espécie de jornal; é para quem é HIV-positivo.

Está com raiva? Soque uma almofada. Adiantou? Não muito. Nos dias de hoje as pessoas estão com raiva demais para socar. Você deveria tentar apunhalar. Pegue uma velha almofada e coloque-a na grama em frente à casa. Apunhale-a com uma grande faca pontuda. De novo, de novo e de novo. Apunhale com força suficiente para que a ponta da faca entre na terra. Apunhale até que a almofada se acabe e você esteja simplesmente apunhalando a terra de novo e de novo, como se quisesse matá-la por continuar a girar, como se estivesse se vingando por ter que viver neste planeta dia após dia, sem ninguém.

Vincent estava no quintal compartilhado. Eu já estava atrasada no meu uso do pátio, daí fiquei um pouco ansiosa por vê-lo ali tão no final no mês. Então tive uma idéia; eu poderia me sentar lá com ele. Botei uma bermuda, óculos de sol e óleo de bronzear. Mesmo sendo outubro, a temperatura ainda parecia de verão; eu tinha na cabeça uma imagem de verão. Na verdade, entretanto, ventava bastante e eu tive que correr de volta em busca de um agasalho. Poucos minutos depois, corri de volta em busca de calças compridas. Finalmente, sentei numa espreguiçadeira ao lado de Vincent no quintal compartilhado e fiquei vendo o óleo de bronzear ser absorvido pela minha calça de brim. Ele disse que sempre gostou do cheiro de óleo de bronzear. Foi uma maneira muito gentil de mostrar que entendia a minha situação. Um homem gentil, assim é o Novo Homem. Perguntei-lhe como estavam as coisas na Punt e ele me contou uma história engraçada sobre um pastel. Como estamos no mesmo ramo, ele não precisou me explicar que “pastel” é a gíria para “erro tipográfico”. Se Helena tivesse aparecido, precisaríamos parar de usar nosso jargão profissional para que ela pudesse nos entender, mas ela não apareceu porque ainda estava no trabalho. Ela é assistente de um médico, o que pode ou não ser a mesma coisa que uma enfermeira.

Fiz mais perguntas a Vincent, e suas respostas foram se tornando cada vez maiores até chegarem a uma espécie de velocidade de cruzeiro e eu não precisei mais perguntar, ele só fazia discursar. Aquilo era inesperado, como se a gente de repente se visse no trabalho num fim de semana. O que eu estava fazendo ali? Onde estava minha Princesa e o Plebeu? Meu Americano em Paris? Aquilo era pura rotina, era um americano na América. Afinal ele fez uma pausa e examinou o céu e eu imaginei que estivesse bolando a pergunta perfeita para mim, uma pergunta fantástica que me obrigaria a me esforçar para responder, baseada em tudo o que eu sabia a meu respeito e a respeito de mitologia e desta terra negra. Mas a pausa era só para enfatizar o que ele estava dizendo sobre como o projeto da capa não era realmente culpa dele, e então no fim ele me fez uma pergunta; ele perguntou se eu achava que a culpa era dele, sabe, com base em tudo o que ele tinha me contado. Olhei para o céu só para ver qual era a sensação. Fingi que pensava antes de lhe falar sobre a secreta sensação de alegria que eu guardava no peito, esperando, esperando, esperando que alguém percebesse que eu me levantava toda manhã, sem qualquer razão aparente para viver, mas eu me levantava, e era só por causa daquela alegria secreta, o amor de Deus, no meu peito. Baixei o olhar do céu para os olhos dele e disse não foi culpa sua. Desculpei-o pela capa e por tudo mais. Por não ser um Novo Homem. Caímos então no silêncio; ele não me fez mais perguntas. Eu ainda estava feliz por estar ali sentada ao lado dele, mas era só porque espero muito, muito pouca coisa de gente comum, e ele agora tinha passado a ser Gente Comum.

Então ele caiu para a frente. Com um movimento brusco, ele se inclinou para a frente num ângulo não-humano e ficou daquele jeito. Aquilo não era comportamento de Gente Comum, nem de Novos Homens; talvez fosse algo que um homem antigo fizesse, um homem idoso. Chamei, Vincent. Vincent. Gritei, Vincent Chang! Mas ele ficou ali inclinado para a frente em silêncio, o queixo quase nos joelhos. Abaixei-me e olhei-o nos olhos. Estavam abertos, mas fechados como uma loja que está fechada e parece fantasmagórica com todas as luzes apagadas. Com as luzes apagadas eu podia ver agora como ele tinha estado iluminado até um instante atrás, mesmo em seu egoísmo. E me dei conta de que talvez a revista True estivesse errada. Talvez não existissem Novos Homens. Talvez só existissem os vivos e os mortos, e todos aqueles que estão vivos se mereçam e sejam iguais uns aos outros. Empurrei seus ombros para trás para que ele ficasse reto em sua cadeira outra vez. Eu não sabia nada de epilepsia, mas tinha imaginado mais tremores. Tirei o cabelo dele do rosto. Pus a mão debaixo do seu nariz e senti sopros suaves, uniformes. Apertei meus lábios sobre sua orelha e sussurrei outra vez: não foi culpa sua. Talvez essa seja na verdade a única coisa que eu sempre quis dizer a alguém, e ouvir de alguém.

Aproximei a cadeira e encostei minha cabeça em seu ombro. E, embora estivesse mesmo apavorada com aquele ataque epilético do qual precisava cuidar, adormeci. Por que fiz essa coisa perigosa e inadequada? Eu gostaria de pensar que não fiz aquilo, que na verdade alguém fez por mim. Adormeci e sonhei que Vincent deslizava as mãos sobre minha blusa enquanto nos beijávamos. Eu poderia dizer que meus seios eram pequenos pelo modo como suas palmas estavam curvadas. Seios maiores teriam exigido um ângulo menos agudo. Ele os segurou como se há muito tempo os desejasse e eu de repente vi as coisas como realmente eram. Ele me amava. Ele era uma pessoa complexa, com camadas de emoções permeáveis, algumas espirituais, algumas torturadas de um jeito mais terreno, e ardia de desejo por mim. Aquele ser passional era meu. Segurei seu rosto ardente e fiz a pergunta difícil.

E Helena?
Tudo bem, porque ela trabalha no campo médico. Eles precisam fazer o que é melhor para a saúde.
Está certo, é o juramento de Hipócrates.
Ela vai ficar triste, mas não vai se meter conosco, por causa do juramento.
Você vai mudar suas coisas para meu apartamento?
Não, preciso continuar a viver com Helena por causa de nossos votos.
Seus votos? E o juramento?
Vai dar tudo certo. Nada disso importa perto do que temos.
Algum dia você a amou de verdade?
Não, de verdade não.
E me ama?
Amo.
Mesmo eu não sendo a tal?
De que está falando, sua coisinha perfeita?
Você consegue ver que sou perfeita?
Está em tudo o que você faz. Eu fico olhando quando você pendura a bunda do lado da banheira para lavá-la antes de ir para a cama.
Você pode me ver fazendo isso?
Toda noite.
É só por via das dúvidas.
Eu sei. Mas ninguém vai penetrá-la enquanto você dorme.
Como pode ter certeza?
Porque estou tomando conta de você.
Pensei que eu tivesse que esperar por isso até morrer.
De agora em diante eu sou seu.
Aconteça o que acontecer? Mesmo quando você estiver com Helena e eu for só a mulher baixinha do andar de cima, eu ainda vou ser sua?
Vai, isso é um fato entre nós, mesmo que nunca mais falemos a respeito.
Não posso acreditar que isso esteja realmente acontecendo.

E então lá estava Helena, sacudindo nós dois. Mas Vincent continuou a dormir e eu me perguntei se ele estava morto e, se estivesse, se tinha dito as coisas do sonho antes ou depois de ter morrido e qual dos dois era mais válido. E, além disso, eu era uma criminosa? Ia ser presa por negligência? Olhei para Helena; ela fervilhava de atividade em suas roupas de assistente de médico. Todo aquele movimento me atordoava; fechei os olhos outra vez e estava quase voltando para o sonho quando Helena gritou, Quando começou o ataque? E, Por que diabos você estava dormindo? Mas ela estava checando os sinais vitais dele com floreios profissionais e, quando olhou de novo para mim, eu soube que não precisava responder aquelas perguntas porque de algum modo eu tinha me tornado assistente dela, a assistente da assistente do médico. Ela me disse para correr ao apartamento deles em busca de um saco plástico que estaria em cima da geladeira. Corri para dentro agradecida e fechei a porta.

O apartamento deles estava muito silencioso. Andei na ponta dos pés pela cozinha e encostei o rosto no congelador, aspirando os complexos cheiros da vida dos dois. Eles tinham fotos de crianças presas à geladeira. Tinham amigos e aqueles amigos tinham gerado mais amigos. Eu nunca vira nada mais pessoal do que as fotos daquelas crianças. Queria me esticar e apanhar o saco plástico no alto da geladeira, mas eu também queria olhar cada uma das crianças. Uma se chamava Trevor e ia dar uma festa de aniversário naquele sábado. Venha por favor!, dizia o convite. Vai ser uma superfesta!, e havia a foto de uma baleia. Era uma baleia de verdade, uma foto de uma baleia de verdade. Olhei para seu minúsculo olhinho penetrante e pensei onde estaria agora aquele olho. Estaria vivo e nadando, ou teria morrido há muito tempo, ou estaria morrendo agora, exatamente naquele segundo? Quando uma baleia morre, ela afunda devagar no oceano, durante um dia inteiro. Todos os peixes a vêem afundar, como uma estátua gigante, como um prédio, mas devagar, bem devagar. Concentrei minha atenção no olho; tentei alcançar o que havia no fundo dele, dentro da baleia real, da baleia que estava morrendo, e sussurrei, Não é culpa sua.

Helena entrou batendo a porta dos fundos. Comprimiu rapidamente seus seios de encontro às minhas costas enquanto se esticava para apanhar o saco e então correu de volta para fora. Virei-me e a observei pela janela. Estava aplicando uma injeção em Vincent. Ele estava acordando. Ela estava beijando Vincent, e ele estava esfregando o pescoço. Perguntei-me do que ele se lembrava. Agora ela sentava no colo dele e tinha os braços em volta do seu pescoço. Eles não olharam para cima quando passei andando.

O interessante em Positive é que o HIV nunca é mencionado. Se não fossem pelos anúncios — Retrovir, Sustiva, Viramune —, dava para pensar que era uma revista sobre ser positivo, tipo otimista. Por isso é minha revista preferida. Todas as outras põem você pra cima só pra te derrubar, mas os editores da Positive compreendem que a gente já foi derrubado, mais de uma vez, e que nessa altura realmente não precisa se sair mal num teste chamado Você é mesmo sexy ou só mais ou menos? A Positive traz listas de maneiras de se sentir melhor, do tipo “Dicas da Heloise”. Elas parecem fáceis de escrever, mas é assim que aparentam ser todos os bons conselhos. O bom senso e a verdade devem parecer anônimos, escritos pelo próprio tempo. É mesmo difícil escrever alguma coisa que faça com que alguém que tem uma doença terminal se sinta melhor. E Positive tem regras, não se pode simplesmente roubar idéias da Bíblia ou de um livro sobre zen-budismo; eles querem material original. Até agora nenhuma das minhas sugestões foi aceita, mas acho que estou chegando perto.

Você tem dúvidas a respeito da vida? Não está muito certo de que ela valha a pena? Olhe para o céu: ele está lá para você. Olhe para o rosto de cada pessoa com quem você cruzar na rua: esses rostos estão lá para você. E a própria rua, e a terra debaixo da rua, e a bola de fogo lá embaixo da terra: todas essas coisas estão lá para você. Elas estão lá para você tanto quanto para as outras pessoas. Lembre-se disso quando acordar pela manhã e pensar que não tem nada. Levante-se e vire-se para o leste. Agora celebre o céu e celebre a luz dentro de cada pessoa sob o céu. Tudo bem se tiver dúvidas. Mas celebre, celebre, celebre.


escrito às 5:02 PM por giannetti