lugares.que.nao.conheço.pessoas.que.nunca.fui
31.3.05

PERSONA

"De 1946 a 1951, vida porteña, solitaria e independiente; convencido de ser un solterón irreductible, amigo de muy poca gente, melómano lector a jornada completa, enamorado del cine, burguesito ciego a todo lo que pasaba más allá de la esfera de lo estético" .

"a city with a beautiful site is about as reliably interesting as a person with a beautiful face, and just about as likely to have been spoiled".

(nao digo mais os nomes. muito ciume).

escrito às 10:34 AM por giannetti




30.3.05

LIGAÇAO

Não é que eu não tenha reconhecido a voz dela. Logo nas primeiras palavras, o tom e a vibração familiares, as modulações que eu não ouvia há mais de dez anos e justamente por não ouvir há tanto tempo essa voz, a associação entre ela e sua dona me parecia impossível. Uma operação automática aconteceu entre o ouvido que estava colado ao celular o meu cérebro e os dois decidiram, nesse acordo tácito, excluir de cara a possibilidade de que, do outro lado do telefone, estaria Helena. Precisou dizer duas vezes que era ela mesma, Helena, e que estava na cidade, para que eu pudesse compreender a relação entre o seu nome, meu passado e o fato de que

O celular tocou e do outro lado da linha uma voz vagamente familiar me forçou a um acordo rápido entre cérebro e audição para que o reconhecimento fosse possível: era Helena e estava na cidade. Mas meu começo de conto estava perdido e o que pretendi escrever acima aniquilado por sua presença tão próxima.

escrito às 11:00 AM por giannetti




26.3.05

SEU NONÔ DE SUNGA

Estou no Fred, tentando fazer um frila, mas é feriado e o Cardoso tá aqui e um monte de gente na sala. Off-topic mas a questão é que meu micro quebrou e, mais uma vez, quem tenta dar um jeito nele é Fred. Ontem passei a noite revisando "Diário de Pagú" e acordei comprando um HD novo no edifício Central. O que faço agora é tentar traduzir eletro indiano inspirado em baile funk carioca pra leitores da Revista Jovem Pan, tendo à minha volta uma profusão de gaúchos, cariocas, paracambienses, povo de Sanja e Ilha do Governador comentando o futebol.

escrito às 4:01 PM por giannetti




PORTAL LITERAL

O Marcelino Freire me entrevistou e o resultado está lá no Portal Literal. Como é de costume, respondi demais, escrevi demais, então o que ficou de fora lá eu colo mais tarde aqui.



Eu gostei desse quadrado rosa na minha cara. Vou adotá-lo de agora em diante em eventos sociais (melhor que a sacola das Sendas).

ELE- Essa coisa de literatura feminina, de mulheres clariceanas, enche o saco, não? Mas posso perguntar? Respondaí.

EU - Inegável que existam diferenças entre texto escrito por mulher e texto escrito por homem; tanto quanto é inegável que existam diferenças entre textos escritos por autores diferentes. Ninguém é igual a ninguém mesmo. Primeiro - acho que confundem literatura feminina e as clariceanas. Foi tanta mulher copiando Clarice durante tanto tempo que, embora essas "xerocadoras" (elegantemente, evitaremos o trocadilho) não tenham permanecido, parece ter ficado esse ranço: uma metonímia infeliz em que literatura feminina e jorro emotivo desvairado no papel passaram a significar a mesma coisa. Tem uma terrível "carta de editor" num romance do Ian McEwan, Reparação, que trata disso; a protagonista, Briony, uma escritora iniciante, envia os originais de um conto que escreveu embebida, empolgada com a leitura de As ondas, da Virginia Woolf. Aí já viu, chuá chuá. E o editor manda na lata: olha, minha filha, os leitores podem até estar familiarizados com esse negócio de teorias da consciência de Bergson mas, mesmo assim, ainda são todos doidos igual criança por uma história, por "saber o que acontece". Ou seja: mete uma colher de pau nesse angu senão desanda. Segundo - confundem (homens e mulheres) voz literária com sexo de personagem. E ¿ pior ¿ sexo de autor. Exemplo: se um personagem é macho e criado por mulher, questiona-se se a autora não estaria tentando se libertar do que costumam considerar literatura feminina. A resposta ¿ acredito ¿ é não. Terceiro - Tem o caso da Jane Austen, que eu aproveito para citar porque é uma autora do século XIX que ainda rende scripts para cinema e bate-bocas em pleno 2005. Sua obra é xingada de "literatura de mulherzinha" (o terceiro engano rotula a escrita feminina como propaganda do final feliz ¿ uma lástima), embora sua escrita seja mais que perfeita, prenda totalmente a atenção do leitor e ironize os costumes da época de uma maneira que mulher alguma jamais tinha feito ¿ com elegância, com um texto irretocável, com um puta senso de humor, um poder de observação que qualquer repórter metido a besta ou a gonzo hoje em dia reza escondido para ter (se possui discernimento para saber o que lhe falta). Em Orgulho e preconceito, ela cria um macho tão bom, mas tão bom que até hoje tem mulher vidrada nele. O que distingüe o texto masculino e o feminino? É isso o que todo mundo quer saber quando faz a pergunta sobre se existe literatura feminina ou não. Não consigo imaginar qualquer lista de características que não desembocassem em generalizações bisonhas demais para serem levadas a sério. Perdoem as minhas (mas não a ponto de ignorá-las).


O conto publicado junto com a entrrevista é "Ana & Letícia".

escrito às 1:36 PM por giannetti




24.3.05

MUITA FALTA DE ANTI-PROFISSIONALISMO

Fazendo a trilha nas horas de olhar pros lados e ver o que rola além das quatro paredes está o primeiro disco da galera do Quinto Andar, coletivo hip hop baseado em Niterói que já rendeu Marechal (que hoje colabora com Marcelo D2) e De Leve (entrevistei ele no ano passado). A revista Outra Coisa traz o "Piratão" - como o Quinto Andar batizou o disco - encartado na edição deste mês. Logo mais faço uma matéria pra falar melhor do som. Por ora, se liga os títulos de algumas faixas: "Muita falta de anti-profissionalismo Dub", "$$$", "Cara de Cavalo encontra De Leve" (o embate é o bicho), "Rap do calote" (croniqueta das pequenas malandragens como usar camiseta de colégio público pra viajar de graça), "Melô da propaganda" (De Leve muito, muito bom).

Vale ir na banca e comprar: a revista inteira tá boa. Tem o Matias Maxx e a Tarja Preta, com quadrinhos, cinema e moda; uma ode anti-metrossexual por Silvio Essinger (palhinha de "Um rio de cerveja que passou em sua vida": "Ele vive numa época diferente em que, entre os homens de sua idade, virou uma obsessão apagar as marcas de sua idade. Alguns tem abdomens talhados a lipo, outros passam cremes no rosto e há os que se especializam em sair com meninas que tem metade da sua idade. Eles são muito maduros e portanto talvez não contem a elas que um dia um rio os tragou e eles foram muito felizes. Hoje fazem caras de sabichões e preferem tomar vinho. em goles curtos"); uma matéria sobre a viabilidade de mídias independentes. Tem várias OUTRAS COISAS que muito recomendam a publicação para a NOSSA JUVENTUDE e pros nem tão jovens assim (ora, if you are among the very young at heart...)

escrito às 10:36 AM por giannetti




23.3.05

REVISTA TRIP

Tem texto meu sobre Hunter Thompson e jornalismo literário este mês na Revista Trip. Me pediram um artigo com máximo de 5.000 toques, entreguei quase 9.000, então, o que não entrou no impresso eu vou colocar aqui mais tarde.

A Trip tá interessante, com um "Especial Fim do Mundo" capaz de dar muito motivo para os paranóicos e alarmistas de plantão começarem a acreditar que não são tão paranóicos, nem tão alarmistas assim. Como diria o próprio Hunter, "não existe paranóia."

escrito às 1:39 PM por giannetti




15.3.05

"E o Senhor me disse: Toma de um livro grande e escreve nele em estilo de homem." - Isaias, 8 -1.

escrito às 12:22 PM por giannetti




11.3.05

Jantando, quem não lê jornal descobre que a gente é chamado de covarde a granel; quem não lê jornal e não come carne como eu é de certo modo acovardado mesmo e parece gostar de trocadilhos bobos. O adjetivo escroto que melhor me define agora é egoísmo: pra escrever eu não quero ninguém por perto, nem o jornal que você encheu de nomes pra definir seu mal estar com a gente que vem por aí. Geração natimorta enforcada no cordão umbilical?

escrito às 10:23 PM por giannetti






Basquiat no Brooklyn Museum.

escrito às 9:57 PM por giannetti




"Não perguntar o que um homem possui mas o que lhe falta. Isto é sombra. Não indagar de seus sentimentos mas saber o que ele não teve ocasião de sentir. Sombra. Não importar com o que ele viveu mas prestar atenção à vida que não chegou até ele, que se interrompeu a circunstâncias invisíveis, imprevisíveis. A vida é um ofício de luz e trevas (...). - Paulo Mendes Campos

escrito às 3:00 PM por giannetti




7.3.05

COM UMA FRASE EM TODAS AS SUAS MÃOS

Em momentos mais propensos à sisudez e à culpa, a classe média poderia argumentar que publicar textos em inglês num blog não é uma forma de exclusão; poderia, caso nao estivesse falida e pretensamente igualada ao resto, sem direito a sentir culpa. Como blog não e telefone e eu trato e-mail como comunicação telepática, sem esperar reclamaçoes vou publicar assim mesmo o trecho do texto de Jesse Kornbluth no link do MediaBistro que já dei ali embaixo.

Why do you need to read widely in order to write better? After all, you have something to say and it's like nothing anyone's ever said before. But if you have any perspective at all, you know it's all been said before and you are a pygmy standing on the shoulders of giants and the best way to make yourself worthy is to quote your betters and, when push comes to shove, appropriate their work.

By "appropriation," I don't mean plagiarism. I'm no fan of those famous writers who keep making the news: the ones who write prize-winning books in which¿and it's always a mystery to them¿another writer's sentences end up, word for word, in the book. I'm talking about style, about the sudden burst of dazzle that makes a reader feel you're not just committing journalism, you're actually writing.

For instance: Back in my New York magazine days, I wrote a profile of the late Glenn Bernbaum and Mortimers, the restaurant he owned. Mortimers was the ultimate malt shop for the social set in the ain't-we-rich '80s¿so snooty it was more like a club than a business open to the public. And the time to be seen there was Sunday lunch.

When I described the scene at 1 p.m. on a typical Sunday, I wrote about Jerry Zipkin, Nancy Reagan's best friend, entering with two women from the Goulandris clan¿"with a Goulandris on every arm," I wrote. The imagination-challenged copy editor circled the passage. "Every arm?" she queried. "He only has two." Yes he did, but as astute readers have already guessed, I got the idea for that phrase from a 1968 Bob Dylan song: "John Wesley Harding was a friend to the poor/He traveled with a gun in every hand." (I have just read Luc Sante's review of Dylan's memoirs and am delighted to learn that Dylan "lifted those five words from Woody Guthrie's 'Ludlow Massacre,' in which the striking miners' women sell their potatoes and with the proceeds 'put a gun in every hand.'" From Woody to Bob to Jesse - I hope someone who reads this will remember the phrase and keep the chain going.)

Sometimes what you're taking is rhythm and style. Just as often you're recycling obscure quotations. Isaac Babel: "No iron can strike the heart with as much force as a period in exactly the right place." True. And just as true if you substitute "quotation" for "period."


escrito às 1:35 PM por giannetti




O BOM LADRAO

Na terça-feira passada participei de um debate no MAM de São Paulo, na Bienal da UNE, com o tema "Decifrando o Mapa da Literatura - Novos Caminhos e Suportes". Fomos eu, Fernando Bonassi (colunista da Folha), Telma Scherer (criadora do Grupo Mimeógrafo) e o Roger Jones (um dos primeiros autores brasileiros a despertar interesse das editoras publicando um livro antes na web).

Umas duas horas de falação depois, quando começaram as perguntas do povo, surgiu um rapaz com uma questão que não era boba: morava em Goiânia e tinha participado de um workshop nalguma outra cidade. Para retirar o certificado que comprovava sua participação nas aulas, cobraram-lhe R$ 15,00. Tinha pouco mais que isso no bolso para passar os próximos dias por ali (alimentação) e pagar a passagem de volta pra sua cidade. Preferiu comer. Não retirou o certificado. Que, btw, era de um workshop sobre desigualdade social.

O rapaz perguntou, então, algo que girava em torno disso (minha memória não vai conseguir devolver agora a exata pergunta que ouvimos há cerca de uma semana): que chances têm os escritores que, como ele, não têm condições para aprender seu ofício nem divulgar seu trabalho?Até que ponto ele, que mora num local onde só havia um ponto de utilização público pra internet, foi recentemente atingido por um raio, e que ficará parado por seis meses aguardando conserto - até que ponto a internet está aí pra todo mundo, pra gente como ele poder mostrar sua escrita na web?

A coisa é complicada (avalio eu, postando confortavelmente no ar-condicionado e com conexão rápida), assunto pra 200 debates envolvendo não só escritores. Respondemos com opiniões e duvido que tenhamos oferecido soluções pra um problema desse tamanho.

O Bonassi respondeu com uma história dele, contando que metade dos livros que tem hoje na biblioteca foram roubados porque, quando era novo e decidiu que ia se tornar uma pessoa "lida", mal tinha grana pras necessidades basicas, quanto mais pra entrar numa livraria e pagar pelo que necessitava ler. Roubou. Roubou a rodo.

O auditório ficou um pouco desconcertado. As carinhas dos estudantes ficaram um pouco mais jovens, ponto de interrogação rejuvenesce qualquer um. Roubar?

Nem tudo é preto no branco, como nas páginas do objeto-livro. Os tempos são outros. As lojas estao cheias de alarmes contra furto e cameras hiper-vigilantes. Bonassi completou explicando que há 20 anos, quando construía sua biblioteca a base desses pequenos delitos, a segurança nas livrarias nao era tao eficaz. Não recomenda o roubo hoje, não nessas condições. Não precisa ser ladrão pra ser escritor e bem "lido". Mas precisa da mesma vontade de ser escritor e de ler que o movia a roubar. Se existir vontade séria, existe escritor e não vai ter dificuldade que se ponha entre o texto e essa vontade. Foi mais ou menos isso o final da conversa.

Embora a gente saiba que um debate não dá conta da complexidade disso aí, ainda assim bateu agonia, sensação de impotência, que eu imagino que não é um terço da que o garoto que levantou a questão sente.

***

No MediaBistro, outro tipo de roubo literário.




3.3.05


escrito às 12:52 PM por giannetti





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ANOTAÇÕES QUASE DIÁRIAS SOBRE LIVRO QUASE PRONTO SEMELHANÇA QUALQUER
MERA COINCIDÊNCIA















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