lugares.que.nao.conheço.pessoas.que.nunca.fui
30.4.05

ESQUINAS, PRÉDIOS, CONVERSAS DE BAR

Procurando gente na cidade, Joseph Mitchell no Village Voice.

escrito às 7:28 PM por giannetti




CHICK LIT

O Guardian retoma esse papo.

escrito às 7:08 PM por giannetti





Chet no sokolsky.

escrito às 7:03 PM por giannetti




DENTRO DE UM LIVRO

Antologia com 17 contos em que romancistas, roteiristas, uma dramaturga e até um editor fazem ficção com assuntos ligados à obsessão pela literatura e pelos livros. Lançamento em maio.

Meu conto, "Inseto", é sobre um garoto que larga a faculdade e passa o dia em casa fumando bagulho. Está começando a se virar vendendo pros vizinhos quando uma pessoa que ele nunca viu na vida aparece de mala e cuia na porta de casa e... o que isso tem a ver com literatura e com livros? Eu queria fazer uma história que não entrasse logo de sola no assunto, que apresentasse o momento em que bate em alguém, pela primeira vez, a necessidade de escrever.


escrito às 9:37 AM por giannetti




CORDA NO PESCOÇO

Hoje tem trecho de texto meu no Globo.

escrito às 9:26 AM por giannetti




29.4.05

SINTOMÁTICO

Foi o escritor norte-americano Michael Chabon quem definiu a doença da meia-noite - num livro que virou filme e num artigo que a reformulação do seu website escondeu de mim - como um distúrbio mental que ataca mesmo os que escrevem de manhã ou no meio da tarde. A qualquer hora do dia, a sensação de ser a única pessoa acordada na madruga, olhando pela janela de casa um céu noturno. Um tipo de "insônia emocional" - palavras dele - ligada ao cálculo de todos os azares possíveis e implausíveis, a insistência em pensamentos infrutíferos sobre assuntos que devem ser abandonados antes que todos os seus amigos te abandonem porque não agüentam mais te ouvir falando disso; e também a propensão a dar ouvidos a tudo, até a uma mosca que zanza dentro de uma garrafa vazia de Coca-Cola.

E os vizinhos - nada. Dormem como a gente menos esquisita que fingem ser ou sofrem da insônia comum. Aquela que a TV resolve, que não vai gerar duas ou duzentas páginas cheias de letras que podem ir pro lixo ou não. Os vizinhos saíram. Talvez escrevam livros melhores com o que vêem na rua.

Se isso fosse considerado produtivo, ok. Ok - se tivesse um capítulo resolvido pra cada noite dessas e sua gama de barulhos miúdos tipo brasa de cigarro queimando e um único grilo perdido no vão dos prédios. Às vezes um tiro longe, "forças especiais", ou os fogos, coisa chegando lá em cima. Os móveis estalando e vem uma teoria mais absurda que a outra em fila indiana e sem o suposto efeito sedativo das ovelhas que nunca conheci quem contasse.

E o vício numa música só ou numa determinada seqüência de músicas repetida a noite inteira, embalando algum possível transe ou interrompendo uma idéia remelenta que deve ser esquecida, sim. Pode ser que as coisas fiquem mais claras depois. Os barulhos miúdos continuam, só um pouco abafados pelo som baixo, são melhores, sussurros de paranóias, um cantor de folk americano afogado, outro cantor de folk americano suicida, ou foi a namorada que lhe enterrou a faca no peito (cantor de folk não comete haraquiri), uma cantora americana que talvez durma na cama do Michael Chabon enquanto ele fica acordado escrevendo essas coisas (havia um link pra Aimee Mann no site do autor, mas talvez sejam vizinhos ou ela é o som que fica no repeat das meia-noites doentes dele), um cantor de folk fanho que está na trilha sonora do filme feito a partir do livro de Michael Chabon.

Outro sintoma da doença da meia-noite é a mania de amontoar coincidências (quem sabe fazer uma história com elas), estranhos paralelos entre elas, ("Strange parallel", o documentário sobre o cantor de folk suicida)... dia e noite.

"Quando entramos de novo na cozinha, a festa estava acabando..." Letras pretas no papel branco, você continua em casa, idiota.

escrito às 4:44 PM por giannetti




22.4.05

FRAGMENTOS DE UM LIVRO ROUBADO

Faulkner: O artista não tem importância. Só o que ele cria é importante, já que não há nada de novo a ser dito. Shakespeare, Balzac, Homero, todos escreveram a respeito das mesmas coisas, e, se tivessem vivido mais mil ou dois mil anos, os editores não teriam precisado de mais ninguém desde então.

Pergunta: A individualidade do autor não é importante?

Faulkner: Importantíssima para ele.

***

Pergunta: O senhor mantém um caderno?

Forster: Não, eu o consideraria impróprio.

Pergunta: Mas o senhor se utiliza de cartas e diários?

Forster: Sim, isso é diferente.

Pergunta: Quando o senhor vai, digamos, ao circo, seria capaz de pensar: "Que interessante seria colocar isso um romance?"

Forster: Não, eu o consideraria impróprio. Nunca penso "isso poderia ser útil". Não creio que seja correto para um escritor fazer isso.

***

Trechos extraídos do único volume que já tomei emprestado de alguém que não conhecia e, portanto, não devolvi. Tecnicamente, isso é roubo. Estávamos, eu e um grupo que agora se espalha por pontos diferentes do planeta, numa festa num estúdio em Laranjeiras. A biblioteca ficava no subterrâneo ao qual se descia por uma escada do tipo submarino (se preferir uma imagem menos cinematográfica, posso dizer que era uma dessas escadinhas de cama beliche infantil pregada à parede). Naturalmente, já era bastante difícil descer e subir a escada enquanto estava sóbria e a coisa piorou ao longo da noite. Não obstante - hoje eu vou gastar todos os termos que não uso nunca para não conspurcar (taí, conspurcar) a linguagem "rápida" que demanda o realismo corrente; esses palavrões ofendem os puristas do real - as pessoas saracoteavam da sala pra biblioteca, que ficava exatamente embaixo dela, e pra cima de novo pra buscar bebida. Os dois ambientes eram divididos por um vidro transparente: do subsolo, o chão-teto mostrava o que as mulheres haviam trazido sob a saia; de cima, o ângulo ajudava a cavar mais os decotes. Todo mundo achou o chão-teto transparente uma puta idéia e ficava transitando de um cômodo pro outro, dando tchauzinho pelo vidro. Nessa época, a urgência era só uma força sem alvo, sem direção - bandas, música, pintura, gravura, foto, texto; alguns faziam tudo ao mesmo tempo - nada, nada era mais urgente que fazer essas coisas nem tão necessário que não pudesse esperar a gente acordar, beber café, folhear o jornal, ler um pouco de um livro, escrever alguma coisa despertada pela leitura. E, hoje, qualquer bobagem feita nas condições frouxas que o tempo oferecia então me parece extraordinária. Do resto todo, depois, muito se dissolve na rotina: até as festas passam a se encaixar no cotidiano com uma sincronia monótona que tira todo o gosto da palavra "festa". Na rotina cronometrada, a ressaca é sempre mais memorável que os acontecimentos da noite anterior.

Por isso é que eu me lembro de ter descido e subido várias vezes a escadinha com cuidado pra não embaralhar os pés nos degraus estreitos, segurando com uma das mãos nos que havia pisado e com a outra levando um copo de plástico e o maço do cigarro. Numa das minhas viagens ao mundo subterrâneo eu encontrei esse exemplar do volume um de "Os escritores - Históricas entrevistas da Paris Review" (Companhia das Letras), deitei no chão e comecei a ler. No final da noite, vendo que eu ainda não tinha desgrudado do livro, o fotógrafo que ofereceu a festa me disse pra eu levar e ler em casa com calma, então meti "Os escritores" despreocupadamente dentro da bolsa. Mais tarde descobri que a casa não pertencia ao fotógrafo, nem a nenhum parente de qualquer um dos meus amigos. Eu nunca soube de quem era a biblioteca e fiquei com o livro pra mim.

Sim, tecnicamente um roubo. Mas foi há uns dez anos e eu duvido sinceramente que o proprietário lesado leia isto e reconheça na minha descrição a sua biblioteca transparente e se dê conta do furto não-planejado. Só por isso que eu conto. E pra poder usar uma frase arrogante logo de manhã (dizem que é bom gastar essas coisas logo que a gente desperta; assim poupamos quem nos encontra mais tarde): discordo de Faulkner. Mesmo que Shakespeare, Balzac e Homero tivessem vivido mais dois mil anos, os editores e o mingüado público leitor continuariam precisando de outros escritores, sempre. Por excelentes que fossem - e continuamente - o leitor ia se encher da monocultura dos clássicos, que, vivos, opinariam sobre tudo como caetanos eternos. E eles, os autores, de repente não teriam mais a urgência de escrever, perderiam o que o Raimundo Carrero chama, nas suas oficinas, de "impulso". Viveriam aquela eternidade borgeana - um trio mudo e esquecido da sua força. E, se continuassem na ativa, todo mundo que precisa de livros ia continuar renovando a sua curiosidade - leitores são uma raça infiel de devoradores de xerazades - querendo sempre saber, dos novos narradores, o que acontece depois, e depois e depois até o final dos tempos.

Mas concordo com Faulkner, após ter gastado um pouco da arrogância ao discordar: a individualidade do artista não tem importância, senão pra ele mesmo. Sem ela, não cria nada especial.

escrito às 9:26 AM por giannetti




20.4.05


escrito às 11:24 PM por giannetti




de vez em quando eu vejo um acesso de provedor dos estados unidos nas estatísticas de visitantes do site e imagino que pode ter sido a thabata ou o nicholas, o roger, a lu ou o paya, até o calvin, o calvin hoje certamente já domina e da última vez que eu o vi ele só tinha crescido até a altura dos meus joelhos. já mandei alguns e-mails e scraps, os frota e a lu andam mudos faz tempo, então isso é um recado aberto.

hoje em vez de sair cedo e suar, acendi um cigarro às nove, tendo ido dormir mal às quatro, ontem olhei os classificados do village voice, dizem que agora o bom mesmo é a austrália ou até o quebec (eu ia dizer que é o "quente" mas...)

vou reclamar meus direitos ali na universidade e já volto. quem sabe quando eu tiver o diploma?

escrito às 10:02 AM por giannetti




19.4.05

Ficou mais escuro no estacionamento de repente, a lâmpada do poste em cima do orelhão começou a piscar lá no alto como se a qualquer momento pudesse sacanear ainda mais o cenário e cuspir cacos de vidro afiados na cabeça do cara que estava falando no telefone. O celular inútil no bolso e tudo quase breu. Tentava dizer alguma coisa, a ligação não estava ruim mas às vezes ele fingia que estava, pra contornar os silêncios e disfarçar as fraquejadas na voz. Não queria que ela pensasse que era frouxo. Idiota, tudo bem. Frouxo, não.

- Sabe o que que é? Se você passa muito tempo sendo tratado igual idiota, você começa a agir igual idiota.

- Só se você deixar, Lu.

- Você me acha idiota? Você acha que eu sou um palhaço?

- Não acho - ela interrompeu, forçou um suspiro, retomou - não acho, não. Acho só que você dá mole.

- Eu não dou mole. Eu deixo cada um com seu cada um, não mexo com ninguém e espero que ninguém mexa comigo.

- Esse é teu problema.

- O que, tu acha que eu devia ser um escroto? Você preferia que eu fosse um escroto?

- Pára com isso, Luciano.

- Você me chamava de mô.

- Quê?

- Você me chamava como? Você já viu? Agora é "Luciano".

- Deixa de ser maluco.

Ele ficou calado, engoliu alguma coisa, seco, olhou por detrás do ombro para o restaurante e verificou que o abajur ao lado da caixa registradora devia estar aceso porque fazia um borrão amarelo refletido na janela, possível seu Acácio calculando, se segurando pra não sair atrás dele com meia garrafa quebrada na mão. Ou era o irmão repetindo a cena de botar um gole na boca, retorcer a cara e cuspir o líquido na pia. A mancha no vidro parecia ampliada com o foco de luz que brilhava do lado de dentro e ele não conseguia ter certeza qual dos dois. Tinha limpado a janela de manhã e agora já estava como se dez cavalos tivessem feito fila pra lamber, babar, embaçar a vidraça com o bafo podre. Possível um dos que vão lá, mulas, parece um pé-sujo de faroeste o restaurante que o pai levou a vida inteira pra agora um saloon de faroeste parece parece parece que a qualquer hora vai entrar um cara escarrando no chão e pedindo cachaça etc. que bom porque essa cerveja tem gosto de mijo e preço de ouro. "É tudo amarelo, palhaço, mas não custa a mesma coisa", Léo cuspiu.

- Tem alguém aí.

- Não fode, Luciano, bebeu?

- Quem tá aí do teu lado?

- Ahn, tá, quem você acha? O cachorro? O cachorro tá aqui, mas não tá dando a menor idéia pro que eu digo. Você também não. Às vezes eu acho que você e ele têm a mesma capacidade de concentração.

- Eu te liguei por que eu tô com um problema sério e você fica de

- Eu não tô de sacanagem, já não te disse o que é que você tem que fazer?

- E você acha que adianta?

- Não dá é pra você ficar reclamando e não fazer nada!

- Mas a única coisa que eu tenho pra mostrar que eu fiz só o que me mandaram é uma porra dum papel com a minha letra.

- Da próxima vez você pede pra ele escrever o que ele quer e assinar embaixo. Deixa de ser besta.

- O Léo tá aí, não tá?

Dessa vez ele teve que tapar o bucal do aparelho com a palma da mão e respirar fundo, bem fundo - igual um fraco, idiota, boçal, besta incompetente (respirar não ajuda a recuperar seja lá o que for que a gente perde nessas horas).

- A próxima vez não interessa! Interessa que tá acontecendo agora. Tem um prejuízo, é a mesma coisa que se eu tivesse comprado mijo em vez de cerveja. Entendeu?

- Eu sei, meu -

- É uma bosta! E agora, porra? Eu só tenho isso, botei ali o que ele mandou e não dá pra suspender. São, tipo, R$ 6 mil mais frete e o cara não aceita devolução. E quer saber do pior? Essa cerveja é uma merda mesmo.

Aqui, como não tivesse amostra do produto à mão, desejou que a lâmpada em cima do orelhão realmente estourasse - o barulho, podia ser quebrava uma garrafa, aí era um cara descontrolado num estacionamento às escuras em vez de um idiota dependurado no orelhão. Mas não foi.

- E o Léo, você acha que ele vai deixar você se fuder sozinho por -

- Olha, se ele tem coragem de dizer pro coroa -

A ligação ficou ruim outra vez.

- se ele tem coragem, entendeu, de dizer, e diz na minha cara -

Cada vez pior.

- mais cedo que eu e diz na minha cara! -

- Diz porque você deixa. Por que que você nunca falou nada? Olha, eu tô aqui desde -

- mente horário acha que vai dizer que foi ele que mandou pedir mijo -

Agora ela cobriu com todas as mãos os buraquinhos do telefone e afastou a boca. Ele teve certeza de ter ouvido o irmão dizer gostosa do outro lado da linha, mas Léo devia estar falando de alguma coisa que a Patrícia - na cozinha quando ele chegou de repente e nem sabia - no telefone com ele - e era isso mesmo que eles iam dizer depois quando tentassem - parece maluco. Luciano entrou no restaurante e disse para Acácio que ia anunciar o próprio carro logo cedo, pouco tempo, dias pra equilibrar o caixa de novo.

escrito às 11:29 PM por giannetti




18.4.05

É DROGAS

In 1943, when she was working in Hollywood, Dorothy Parker was one of the pre-eminent figures in the American intelligentsia. Her poems and critical writing in The New Yorker and Vanity Fair had made her a force to be reckoned with in highbrow circles; even if she wasn t revered in academic circles at that time, she was still a shining example of the liberal, educated mind.

So a confession she made that year about the uneasy relationship that has always existed between intellectuals and the popular art form known as the comics was both startling and revelatory.

"For a bulky segment of a century, I have been an avid follower of comic strips - all comic strips", - Parker wrote. "This is a statement made with approximately the same amount of pride with which one would say, "I´ve been shooting cocaine into my arm for the past 25 years."
- Do site do jornalista canadense (CANADENSE, Fred) Jeet Heer.

Pra continuar no assunto, k-punk, blog de estudos culturais renegados do teórico Mark Fisher.

p.s.: É DROGAS, p.a. (Plural abjeto)

escrito às 9:09 AM por giannetti




17.4.05

P.h.DOTCOM

Naquele jornalzinho de distibuição gratuita na MegaMaçã fala-se em professores disponíveis 24h.

Enquanto isso, em algumas federais, parte dos professores não estão disponíveis hora alguma. Aqui, o "sistema" (se existisse, de fato, e não fosse apenas um bom gancho de discussão levantado por, repito, um jornalzinho de distribuição gratuita) representaria um avanço menos hipócrita. Online, ao menos, os professores faltosos assumiriam seu status virtual.

***

Na américa de cá - se é que as referências geográficas ainda valem de alguma coisa - o meu trabalho neste fimde é em parte via web e com um professor-autor que lança no próximo mês um guia para escritores. Adianto uma coisa: o livro é bom e o mestre aparece mesmo pra dar aula em seus workshops, ao contrário de

etc. Vou parar de fingir que critico com elegância velada a ECO, até porque frescura não leva a nada - basta analisar a maioria das teses escritas de acordo com os padrões exigidos pra verificar a inutilidade dessa virtude superestimada na produção de argumentos que pesem mais que uma pitanga. Favor liberar meu diploma. Nâo há qualquer justificativa possível para o atraso se estender ainda mais, nem neste mundo nem em Júpiter nem dentro da cabeça de algum ex-coordenador porventura perdida para sempre em viagem extra heavy de sálvia. Favor fumar menos. Favor espectum. Favor. Ora, porra, desejo ardentemente aprofundar meus estudos na acadimia, desta vez estendendo meus braços bem torneados em direção a questões que levem P., nosso Hackmuth honorário (relutante), ao riso e às lágrimas, não necessariamente nessa ordem.

escrito às 10:19 AM por giannetti




12.4.05

DELIBERATE SUSPENSION OF JUDGEMENT

Uma parte do que eu escrevi esses meses vai aparecer agora (duas antologias, duas revistas e um site). Outra parte, graças a Deus, não vai. Tem coisa em dois cadernos, pra ser reescrita. No computador, juntei uns fragmentos antigos numa pasta sem nome. Dois contos interminados, trechos de uma coisa indefinida. Os e-mails eu perdi na última formatação. Na falta desses leio as cartas do Graciliano. Queria ter os e-mails de volta mas ninguém guarda isso. Sobraram meia dúzia, nem todos de pessoas de verdade.

***

El Lutta,

I hope it´s not late to answer your message. It made me happy to read it at work, where I happened to be utterly bored too. Your message got me to imagine the whole scenario perfectly, with the saggy double bed and the radio on. Are you still in Kosovo? How long have you been away from Dublin now?

Original Message on Wed 10 Jan 2001 12:35:21 --

Hi, not sure as to the absolute sillyness of this, as apperantly you have not been online for the last few months. At any rate will simply be brief and hope that the summised total of my profile will predictably inspire you to engage in dispatch to someone halfway been Cairo and Constantinople. If however it doesn´t shame, as you sound very interesting. All the best.

Lutta Daire

***

forms.of.distorted.thinking.anxiety.disorder

Justo hoje que, de manhã ainda mais cedo, cruzei com a minha cara no espelho do banheiro no momento em que eu - e a minha cara - levantávamos de um mergulho à lixeira pra recolher o saco cheio de papel higiênico usado. E quando cruzei com esse rosto, que é o mesmo rosto que eu trouxe pra frente do computador, você me pede notícias? Não sei te escrever. Porém, sou um idiota completo... Nada lhe faltará: tempo claro, silêncio na vizinhança, nariz congestionado, geladeira vazia. Pão com manteiga, arroz com feijão, eu você. Aceita as coisas como eu sei dizer, combinações óbvias.

escrito às 12:06 AM por giannetti




9.4.05

BONDE DA DESIERARQUIZAÇÃO

Quer dizer que eu fui dormir loca depois do show do Mr. Catra e acordei "excelente"? De acordo com texto publicado no Prosa e Verso, do Globo, eu e o Catra temos pelo menos uma coisa em comum:

Inovações sofrem com preconceito
Beatriz Resende

Para a minha geração, essa categoria de gente estranha que prefere conversar sentada, não gosta de cerveja skol e usa telefone celular só para falar, observar a produção literária contemporânea é experimentar ainda agradável estranhamento diante da sensação de respirar os ares da liberdade. Com todas as agruras do cotidiano, atravessado pela violência de cada dia, produzir cultura em estado democrático, no convívio em liberdade, é outra coisa. Não me venham com os resistentes entre quatro paredes, poéticas do exílio ou criatividades de revolucionários perseguidos que não me convencem. Para a arte, a saúde da democracia será sempre melhor do que a fumaça das perseguições. Hoje, na América Latina, estamos superando, de formas diferentes em cada país, o trauma e o luto da pós-ditadura. As heranças que nos couberam, da corrupção ao narcotráfico, escurecem ainda o quadro, mas não podemos ignorar que vivemos a predominância de governos à esquerda num continente onde as vozes dos excluídos têm, forçosamente, que ser ouvidas, inclusive no sacralizado espaço da literatura.

Na ficção contemporânea a escrita cifrada, a opção pela alegoria, o domínio do subtexto sobre o texto, o uso da literatura como tribuna e espaço de denúncia são escolhas, entre outras. Como é decisão autoral o recato excessivo, a pouca ousadia que em alguns momentos me incomoda.

O efeito mais imediato da vivência democrática me parece ser a multiplicidade, a convivência de propostas as mais diversas, a pluralidade que se revela na linguagem, nos formatos, na relação com o público e até no suporte. São muitas as possibilidades que se oferecem a quem escreve, sem as restrições dos regimes autoritários, da submissão ao pensamento único, da necessidade de ceder a cooptações.

O interesse quase ávido por novos autores

Não que os ficcionistas não enfrentem obstáculos. Além do saudável fantasma pessoal a atormentar cada um ¿ companheiro inevitável para a sobrevivência da obra ¿ outros vilões continuam à espreita. O chamado ¿mercado¿, ou a sedução do mercado, parece ser o maior. Sem ele, porém, o livro não circula e, no caso da ficção, situação bem diferente do ensaísmo, percebo um interesse quase ávido por novos autores. Se vão vender ou não são outros quinhentos.

As editoras se multiplicaram, com as pequenas encontrando vantagens em ter perfil próprio. As livrarias estão mais sedutoras, as festas e bienais repercutem nas cidades. Há prêmios literários inclusive para iniciantes. Assim se revelou Santiago Nazarian, já no terceiro romance aos 28 anos.

Evidentemente, a ampla oferta de qualidade pode dificultar. Com a admirável constância de Antônio Torres, Sérgio Sant¿Anna melhor a cada safra, Silviano Santiago se renovando sem parar, a alta qualidade da obra de Bernardo Carvalho, Milton Hatoum fazendo valer a pena o tempo de espera e o impactante Luiz Ruffato lançando dois volumes de uma vez, fica difícil para o leitor acompanhar a meninada.

A grande novidade em termos de livre acesso ao público, no entanto, são as publicações eletrônicas. Os sites dedicados à literatura têm tratamento profissional, são visualmente agradáveis, de acesso rápido e oferecem vantagens. A primeira é a eliminação das distâncias geográficas. Escritores de todo o país tornam-se acessíveis aos leitores sem necessitar da passagem, antes obrigatória, por grandes centros e nomes como o paraense Edyr Augusto e o pernambucano Raimundo Carrero aproximam-se do debate literário.

Até a academia ensaia aparição na nova mídia

O mais interessante na relação que a publicação on-line oferece é a desierarquização entre textos e autores, com consagrados e jovens no mesmo espaço virtual. Ferreira Gullar ou Lygia Fagundes Telles partilham a tela com as descobertas de Marcelino Freire no Portal Literal. No Paralelos, de Augusto Sales, darlings da ficção convivem com novatos; a excelente Cecília Gianetti, inédita em volume próprio, publica com o já reconhecido Nélson Oliveira. Isso não impede que os ficcionistas participem de edições em livro como ¿Paralelos,17 contos da nova literatura¿ ou ¿Prosas cariocas¿. Até a academia ensaia a aparição na nova mídia com um Fórum Virtual de Literatura, ancorado na UFRJ.

No entanto, parte da vida literária parece conviver mal com a desierarquização, seja pelo uso das novas mídias, seja pela presença nos tradicionais meios de comunicação. Evidencia-se uma dificuldade em lidar com a pouca necessidade de mediadores, intermediários outrora poderosos ente autor e leitor. Falo da resistência da crítica diante de novos autores e espaços. Mais do que isso: refiro-me, sobretudo, à escassa renovação, com poucos jovens intelectuais ousando se expor, enfrentando com independência seus pares, seus contemporâneos. Não consigo deixar de ver conservadorismo nos que acreditam que a inteligência extinguiu-se sobre o planeta com o século que passou, mas é aos jovens teóricos que cabe o protagonismo neste debate. No vácuo que se faz, termina havendo espaço para a surpreendente sobrevivência da crítica preconceituosa, capaz de misturar valores pessoais atrasados com análise literária.

Não é simples a tarefa do pensamento teórico de acompanhar a safra atual de criadores, especialmente quando, como dissera Sartre nos anos 60 ¿as bocas falam por elas mesmas¿ e a função do ¿intelectual público¿ está sendo, digamos, reformatada. Cabe à crítica estatuída, se quiser fazer sentido, aproveitar as vantagens do convívio com a pluralidade e aos nossos jovens intelectuais assumir a prática trabalhosa da reflexão crítica consistente. Espaço para isso ¿ aprendemos com o passado ¿ a gente inventa.

BEATRIZ RESENDE é crítica literária

escrito às 7:03 PM por giannetti




8.4.05

JOVEM PAN

Este mês tem texto meu na revista da Jovem Pan, um conto ("Paulista, como tá você?") e uma matéria (sobre a M.I.A.). Não considerei o conto um frila comum: escrevi com muita vontade de conquistar o freguês. É o público que mais me interessa - a maioria ainda estuda, escuta o que toca no rádio, lê o que por acaso cai na sua mão. Como é que vão ler esse conto, que escrevi sobre isso mesmo - sobre as referências que voam por aí, sobre as que a gente escolhe agarrar e o motivo (ou a falta de motivo)? Sobre ler ou não ler. Será que vão ler?

escrito às 2:10 PM por giannetti




OLHEIRAS

Os amigos por aí cansados, um pouco menos vinte anos e mais o dobro, mais adiante: é cabelo branco na cabeça e vinco pra pensar em Botox desde já. Brinde precoce - é trabalho, todo mundo diz. Sinal que há emprego, ou frila. E que bom que existe. Mas não é a bonança que sugere texto de Ricardo Kotscho publicado No menino. Em geral, acredito que o país não chega a celebrar o terno branco de Jô Soares e a tímida melhora do mercado de trabalho para alguns nichos - só alguns - da imprensa.

Pra não generalizar como ele, digo só dos que conheço: tá ruim mas tá bom.

escrito às 2:09 PM por giannetti




LONGA JORNADA NOITE ADENTRO

Revisando um livro que não dá sono. Não é falta de modéstia, não: o livro não é meu.

escrito às 2:05 PM por giannetti




3.4.05

MÚLTIPLA ESCOLHA

Opções de contos pra enviar ao PACC, que está reforçando seu espaço de literatura na web. Trechos:

A vida secreta dos galos de crista vermelha: Seu irmão mais novo lhe passa as mulheres escangalhadas, as que precisam de conserto de algum tipo. Desde uns 15 anos gosta de ajeitar relógios, rádio-gravadores, aparelhos de ar-refrigerado, garotas, máquinas de costura, liqüidificadores. A habilidade de Ivan com aparelhagem doméstica defeituosa o fez atraente e indispensável para proprietárias ou não de eletrodomésticos defeituosos mas já não pode mais apertar parafusos por aí. Não agora, primeiros meses de apartamento dividido com a baixinha que deixou descer pra buscar gelo nos posto de gasolina (é do lado de casa, e ela não é nenhuma mulherzinha frágil e famélica), três anos de namoro. Contenta-se em imaginar uma luz difusa e cor-de-rosa que emana de um furo na sua camiseta, escapulindo direto do coração, toda vez que apresenta a Felipe uma mulher maluca. Sente que é generoso e deseja o bem a todos. Afasta pensamentos impuros sacudindo a cabeça no compasso do som que estiver rolando ou estalando aberta uma nova lata de cerveja. Anda pela sala enchendo os copos dos amigos e a gente às vezes tem a impressão de que ele está com uns cinco cigarros acesos na boca ao mesmo tempo. Felipe parece a sua sombra, uma versão mais larga, mais velha e sem jeito de Ivan, pra lá e pra cá atrás dele.

Judith: Pouca idade não se aponta nem pela turma nem por qualidade de pele; é pela cara de quem espera boa notícia. O rosto que ele teria depois de engolir sapo, sapo dos grandes, esse rosto acabado ele ainda não possuía. Não tinha a cara que lhe tomaria a cara depois que tivesse se arrependido. Do quê? Não importa do quê ou como nos arrependemos, mas o arrependimento, apenas. Depois dele não tem volta e ninguém nunca mais é novo de novo.

As imaginações disfarçadas: A. imaginou, muito suavemente, que lhe era feita a pergunta, e feita, especificamente, por B. Não imaginou de uma maneira agressiva, ruidosa. Imaginou disfarçadamente, sem fixar o trabalho mental de maneira obstinada e clara sobre o evento imaginado. A imaginação disfarçada, ou disfarçata, deve surgir espontaneamente e desaparecer no segundo seguinte em meio a outros pensamentos corriqueiros sem que a ela se dê qualquer importância além de uma breve constatação. É essencial o termo constatação ¿ o evento imaginado disfarçadamente é constatado como fato corriqueiro com que se pode contar garantidamente, como contamos com o jornal na porta de casa todos os dias, salvo aqueles que não assinam qualquer periódico e têm mesmo o hábito de repudiar a imprensa. Sendo assim, quando A. percebeu que sentiria imenso prazer em que B. se interessasse pelo que A. faria no fim-de-semana, pegou um vôo no Santos Dumont rumo a São Paulo, onde passaria o sábado e o domingo fora da rotina, obliterando aquele instante breve em que desejou ouvir a pergunta "O que você fez no fim de semana?". Não é fácil afundar a memória e esperar (sem esperar) que ela volte à tona quando menos se espera, travestida de fato concretizado no futuro. É um processo realmente complicado mas eficaz. O problema é que nem sempre desejamos o que imaginamos.

escrito às 12:54 PM por giannetti




1.4.05

JUI KUEN

Micro de casa - o que se usa para escrever - devidamente consertado por Badass Tamarindo, herói pessoal da semana (não só pelo domínio que demonstra sobre as máquinas indóceis mas por uma charmosa conversa sobre a Oceania).

Outro que hoje merece algum tipo de menção honrosa é Matias, por explicar o óbvio e obter, em troca, o justo: trabalhar de casa pode ser infinitamente mais produtivo, principalmente para quem lida com texto e cultura.

Sua bravura me lembra o nobre guerreiro Wong-Fei-hung, que tornou-se uma lenda vencendo seus oponentes utilizando uma técnica pouco ortodoxa. Obrigada.

escrito às 11:48 AM por giannetti





escrevescreve

ANOTAÇÕES QUASE DIÁRIAS SOBRE LIVRO QUASE PRONTO SEMELHANÇA QUALQUER
MERA COINCIDÊNCIA















diz que
bravo!

globo - prosa e verso 1
globo - prosa e verso 2
quem
jb - idéias 1
jb - idéias 2
portal literal
globo - megazine
jornal do brasil



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f.a.q.