lugares.que.nao.conheço.pessoas.que.nunca.fui
28.5.05

INCENTIVO

Já sei: você desistiu do romance e vai escrever um livro de auto-ajuda pra gente.

escrito às 12:16 PM por giannetti




ENJÔO NA PROA

Podia ter sido um passeio de barco às 10h da manhã em Angra mas sair às 6h? Mas sair? E o sono desregulado, o STYLNOX [a provável piada do laboratório, pancadas de aço, steel knocks] opportunity knocks, deixa ela sangrar os nós dos dedos até desistir. É quase domingo, o sábado ilude mas o domingo traz ranço antecipado, fim da esmola de tempo conhecida como fim-de-semana, façam pedidos arremessando centavos que vão quicar e afundar na água. Mas ia ser bom... está sendo [ainda não é meio-dia], imagino que o barco agora lasca uns bons rasgos de espuma branca no meio do nada esverdeado, quebra o espelho, e vocês dão braçadas sob os cuidados dos oficiais subordinados pra quem fim-de-semana não faz diferença. Depois um almoço e opportunity knocks e talvez ensinar na Escola Preparatória, olhar as águas paradas de dezenas de olhos destinados à ascender [um ou dois pares verão refletidos um dia no espelho um almirante]. De qualquer jeito, vocês sabem que eu ia vomitar.

escrito às 11:28 AM por giannetti




26.5.05

Passo apertado, depois da praça a Marquês de Abrantes vai rápida, sinal vermelho pára os carros e os carros buzinam na pressa da quarta-feira pré-feriado. Sinal verde pra mim, já chego aí, pede mais uma e sossega, você e o outro na frente do boteco de fachada ridícula, o elefante cinza pintado e o trocadilho Trombada pairando sobre as cabeças ainda cheias de cabelos, vultos de mancadas e possíveis acertos invejáveis - de pé e de barba, com excelente disposição apesar do chuvisco ameaçador, sem nada pra dizer que azede o meu começo de noite, querem saber se já estou perto, mulher é foda, me apresso e faço a narrativa acelerada do trajeto pelo celular, eles não confundem a velocidade das minhas palavras com agressão, conhecem a minha língua e a corrida dos sem-carro pra chegar num lugar na hora marcada, tô a pé, mantendo a locução de jogo de futebol, tô chegando, ninguém sob a bênção do elefante cinza do Trombada me atribui tensão na voz, me aguardam de pé, de barba. Entre amigos, pressão só no chope.

[o velho de ontem, Miguel, diz que o Flamengo devora bêbados nos espelhos do Lamas e oferece muitas mesas, mas nenhum lugar para ir.] Acabamos saindo do bairro, um dos amigos some sozinho dentro do aguaceiro, dá as costas após um espanto quieto, como se de repente tivesse dado conta de si mesmo pela primeira vez. Ficamos e contamos as ratazanas do estacionamento - eram vinte e uma, se as duas com manchas de óleo de carro no lombo não forem a mesma -, esperamos roendo fórmulas precárias sobre as coisas que escolhemos pra nos dar sentido: pessoas, um livro, o aluguel.

A chuva de vento desgastou a manchete colada na banca de jornal,"Anti-poetas trágicos sem verso mergulham na chuva pra pescar chavão." "Moça de cabelos pretos compridos e anáguas resgata náufragos: 'só Deus sabe como estavam secos!', diz ". "Anti-poetas confessam: tivemos medo da palavra".

Quando cheguei em casa perdi o resto da madrugada e foi a terceira ou quarta ou quinta vez sem sono na semana, perdi a conta das semanas iguais a esta, toda noite até o despertador berrar pra quê, se ninguém dorme aqui, nem os postigos remelentos, nem as prateleiras de olhos esbugalhados, nem os armários escancarados, fileiras e caixas de livros como pestanas pesadas decidindo que não vale a pena pagar-lhes o teto se isso me bota em dívida comigo.

[a velha de hoje, Kamille, adivinhou a minha insônia, "o sono vem em gotas / e o amor, / enxurrada"], ouvimos, muito tempo atrás e de graça, os coroas tocando na loja de discos, e passamos tempo sem culpa. Essa palavra, nostalgia, não - aí era o fim da picada, ainda não temos direito a ela, estamos como novos, nenhum dia se passou desde que nos vimos pela primeira vez no espelho e, no entanto, nos conhecemos tão bem. Aí o amigo sumiu no meio daquela chuva carregando a idade no bolso do casaco de lã.

Quem também faz aniversário é o meu livro atrasado, uma múmia imobilizada por um monte de coisas que eu tenho que mandar pra casa do cacete.

escrito às 2:57 PM por giannetti




21.5.05

DAMAS GRÁTIS ATÉ AS DEZ

Reportagem de Cristina Zarur no Globo sobre o livro 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira.

Eu tinha resumido minha resposta a duas perguntas feitas pela repórter num item só, dava muito bem pro gasto. O número 2 que aparece lá na materinha foi reply de um e-mail que dei em seguida quando ela quis saber por que eu não tinha desdobrado a resposta em dois itens. Por isso ficou repetitiva, eu já tinha dito tudo que queria dizer acima. O copy & paste da explicação da explicação dá impressão de que respondi de qualquer jeito. Sou mala, colega.

Neste domingo, 22, tem o lançamento do livro na Bienal, de 20h às 22h, no auditório Carlos Drummond de Andrade. O ambiente vai estar meio insalubre (mulher em excesso, tipo bailão damas grátis até meia-noite) e, se a Record for bacana, vinhozinho pra aloprar de leve. Apareçam.

escrito às 11:13 PM por giannetti




LEITORA ILUSTRE

Isabelita dos Patins passou hoje pelo estande da editora Casa da Palavra. Comprou um exemplar do Prosas cariocas.

escrito às 10:39 PM por giannetti





fotografia de diane arbus

escrito às 10:30 PM por giannetti





"se essa mancha escura for o mar..."

escrito às 10:24 PM por giannetti





hora do recreio

escrito às 10:23 PM por giannetti




PAULISTA, COMO TÁ VOCÊ?

A biblioteca estava fechada para obras. Quando estava aberta, era um deserto: prateleiras refletindo o currículo árido e o jeitão seco como até mesmo os textos não-chatos eram ensinados em sala de aula. Fechada, cercada de sacos de cimento e pás de ferro, a biblioteca combinava com a nuvem cinzenta que cobria toda a escola mesmo nos dias mais radiantes.

Não sei em qual edição da revista da Jovem Pan saiu meu conto, o que dá título ao post. Mas assim que o editor me disser, eu aviso por aqui. O trechinho acima saiu desse texto e fala de uma entre as várias escolas por onde passei.

O único banco raramente ocupado no recreio do Colégio Cenecista Capitão Lemos Cunha ficava no pico mais alto do pátio e dava para a estrada do Galeão e para o muro que, ainda hoje, cerca uma reserva militar.

etc etc etc.

escrito às 10:15 PM por giannetti




17.5.05

Tanto tempo sem atualizar quer dizer muito trabalho, epifanias falsas ou não e mais trabalho, trabalho, trabalho.

***

Encontro A. numa festa, diz que o conto que entreguei a ela num almoço parece um primeiro capítulo, pede sequência. Engrenou na leitura e quando chegou à última página, concluiu que não era o fim da história. Deve estar certa. As certezas dos outros são reconfortantes.

***

As melhores coisas da Bienal pra mim até agora:

- O espaço Imaginário do Autor, com a Rachel Valença.
- Rever os amigos, do Rio e de fora.
- A moça da cerveja que nos adotou. Muito gratos abanamos o rabo do alto dos nossos banquinhos no bar, bando de cachorros sem dono.
- A descoberta de uma característica que eu disfarçava sendo expansiva: a timidez.
- Helen, leitora que se apresentou no estande da Casa da Palavra e levou um "Dentro de um livro".

***

No domingo estarei lá de novo para o lançamento do "30 Mulheres", aquele livro da Record que tem um título enorme e 30 autoras de diferentes faixas etárias, estilos e estados do Brasil. Meu conto nessa antologia se chama "Figurantes", fala dos adjacentes sem paixão, e dos seus opostos, sempre temos medo de que estes tenham ficado no passado, sem ticket de volta. Esperamos que não.

escrito às 5:39 PM por giannetti




5.5.05

Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas - eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes, porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações. Se depois um dia a gente descobre que suas ocupações eram mesquinhas e suas profissões petrificadas, sem ligação alguma com a vida, por que não voltar a olhá-los outra vez como uma criança olha para uma coisa estranha, do âmago do seu próprio mundo, dos longes de sua própria solidão que é, por si só, trabalho, dignidade e profissão? - Rilke.

escrito às 10:46 PM por giannetti





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