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26.9.05

ELES QUE NÃO SÃO (A) GENTE

Se você pára aqui de vez em quando é porque conhece a cara dura e o olho morto. Conhece o olho de pedra, a cara de múmia. Deve te assustar esse tipo de coisa ou não me lia, não me escrevia. Me assustava quando eu tinha 12 anos e ia com a uma Yashica miserável para a porta do Rio Othon Palace, onde ficavam hospedadas as bandas que se apresentavam no Hollywood Rock e outros festivais patrocinados pelas companhais de celular de então - os fabricantes de cigarro. Hoje em dia somos obrigados a ter celulares que disparam em qualquer lugar. Nêgo fala qualquer coisa em qualquer lugar, pra qualquer um ouvir. Fica o ar pior que se a fumaça dominasse. Ninguém pede pra ouvir a conversa dos outros que estão em volta num restaurante, vagão do metrô, fila de espera do ginecologista. Eu já pesquei um "amor, eu não sei, tem uma secreção esquisita..." Não pedi pra ouvir isso. Por outro lado, é proibido acender um cigarro no mesmo lugar em que é permitido atender e falar ao celular. A fumaça incomoda a vida privada alheia, cuspida, escarrada, não. Fumar é execrável, aka feder a cinzeiro. Pior: é proibido que fabricantes de cigarro patrocinem festivais.

Me envieso, esqueço o que ia dizendo e reclamo de outras coisas que não eram a coisa original. A coisa original era a fisionomia rija, o olhar teso, a minha dúvida sobre se o que eu sentia ao encontrar esse casamento num rosto era medo mesmo ou se era um outro tipo pior de pavor, curiosidade ou pena. Se era, por último, receio de ficar igual. Me envieso mas, apesar de eu ter entregado ontem a outro fumante meu maço inteirinho de Marlboro, jurando que não fumava mais, jurando que não mais soltava fumaça pelas ventas, este cigarro retirado do maço novinho que acabei de comprar aqui embaixo tá demais.

A primeira vez que vi olhos daquele jeito - jeito rijo, duro, congelado, mumificado - foi na porta do hotel. E eu era criança, tinha saído de casa escondida às cinco horas da manhã para fotografar o filho da puta do Kurt Cobain, que poucos anos depois se suicidaria e renderia filme de Gus van Sant em exibição no Festival do Rio. A gente soube pelo RJ TV que o futuro defunto auto-encomendado lá estaria tomando todas. A gente era um grupo de meia dúzia de candidatos suburbanos à delinqüência, ao desemprego e à insatisfação permanente, prontos pra quebrar a cara no mundo mas sem um pingo do charme godardiano de um Band of outsiders; mais pra bando de trouxas. A gente foi, assim mesmo ou por causa disso. (Foram dois ônibus pra conseguir chegar ali. Sempre achei engraçado terem construído o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro num bairro-buraco contramão. E sempe me pareceu mais lógico entrar num avião e sair do país que pegar dois ônibus pra chegar à Zona Sul.) Hoje muito parentética, me desculpar aê êta putaquiospa.

Fui lá, fotografei o trouxa dos trouxas, celebrei com guaraná na pastelaria do posto 6 e aí me deu na telha de entrar. No hotel. Como é que não podia? E se eu, de bermudão, boot e camisa de flanela de lenhador, e se eu, de cabelo sem formol (na época o povo sequer imaginava que haveria essa revolução capilar-tecnológica) fosse hóspede? Ah, mas eu tinha que tentar entrar. Tinha um espírito sem luz, uma menina na porta do hotel, com um bloquinho e um fotógrafo, quase tão animado por estar ali quanto o bloquinho dela. Cheguei chegando. "Eu sou da Folha da Ilha do Governador". A moça não virou pra me olhar, não. Mas eu, que tinha 12 anos e estava de boot, cutuquei ela no ombro. "Eu sou da Folha da Ilha do Governador", insisti, apresentando credenciais fictícias de um jornal que nunca existiu. Ela respondeu sem me olhar, com um "__________", um gap, um silêncio, um qualquer coisa não-tô-aqui-mas-me-dá-umas-aspas-que-eu-finjo-que-tu-é-gente. Como a minha mão não descolou do ombro da mulher, ganhei dela uma girada de cabeça na minha direção. Ela estava nitidamente puta, procurava disfarçar. Fazia forfait. Congelava o olhar, e o rosto, e a voz. Eu era uma coisinha de 12 anos. Quis logo saber que é que causava aquilo. O ricto, o nervo estrupiado. Mas tinha mais pena de quem acha que tá safo de que dos que fecham a cara. Não esqueci. "Sou do ____".

A moça carrancuda era do jornal grande, né. Um dia, muito tempo mais tarde, fui fazer entrevista no jornal grande. "Oi, não tenho diploma, mas rola?" Quem tinha me arrumado era um chapa meu da época da Ilha. Eu na Ilha. Ele no jornal. Eu com 12, ele com .... sei lá, 30? E eu dizia a mulher de cara dura "Eu escrevo." E meu amigo mais velho, virtual: "Excelente". Mas eu... anos depois, eu era a própria cara dura e ela não me reconheceu.

escrito às 10:05 PM por giannetti




ILUMINAÇÃO DO DIA

Zadie Smith diz que ela "não é sua pior crítica". Que basta dar um Google para encontrar gente que a odeia mais que ela mesma se odeia]. Isso apesar da descrição que ela dá de seu estilo no primeiro livro: "a script editor for The Simpsons who'd briefly joined a religious cult and then discovered Foucault".

escrito às 8:47 AM por giannetti




25.9.05

LISTA DE FRASES FEITAS

uma penca de desculpas esfarrapadas pra justificar o sumiço [do blog e de gente]:

férias em trafalmador com kurt.

estou voltando a cantar, apesar de o silvio essinger dizer que nossas bandas não deram certo porque temos cabelo ruim.

i am manufacturing z z z z z z´s.

tô escrevendo. agora é tri-destilar. noutro dia mandei um capítulo fraco pra duas pessoas que eu achava que deviam ler. aí depois reli, reescrevi e pensei que a gente quase sempre pode evitar parecer idiota. devia ter ajeitado antes de enviar. ando doida pra entregar tudo, só que ainda vou mexer, que é pra evitar também esse bico de madalena arrependida no espelho.

a essa altura tem uma coisa que mais ajuda que atrapalha: ninguém esperar mais porra nenhuma.

escrito às 2:56 PM por giannetti




14.9.05

MÉTODO FELICIANI DE MANUTENÇÃO DO NÚCLEO FAMILIAR

Meu conto com este título que aparece aí em cima está na terceira edição da Revista Ácaro e é ilustrado pelo Guto Lacaz [da Fôia de S. Paulo]. É aquela editada pelo Chico Mattoso e pelo Paulo Werneck, que vem numa caixinha charmosa, agora patrocinada pela Nestlé [chocolate não-incluído].

Não deu pra ir no lançamento ontem mas vai rolar um no Rio também, em breve, e aviso por aqui assim que souber data e local. O mesmo conto vai sair numa antologia na Itália, onde hoje vive a amiga de quem roubei o sobrenome para a família dos personagens e que aos 14 gostava de passar no Garage pra ver um showzinho e tomar um trago. Fico repetindo igual CD sujo esse detalhe sobre a publicação na Itália que é pra ela não levar um susto por lá.

Não existe "sobre-o-quê" é um conto, um romance, ficção de qualquer tipo. Mas inventar artifícios pra definir cada história é quase uma exigência do trabalho. Há quem não leia algo que não caiba numa definição, assim como é preciso tomar emprestado dos compêndios de patologias definições para pessoas que não cabem na fôrma de bolo protocolar - é o preço que se paga para que circulem, livros e autores, livremente.

Então, esta semana, a história do Método pode ser definida como "uma conversa de telefone-sem-fio entre membros de uma família que não se falam." Da próxima vez que alguém perguntar, a resposta será outra.

escrito às 1:04 PM por giannetti




12.9.05


escrito às 3:36 PM por giannetti




9.9.05

PALAVRAS PARALELAS

E tome falação: dia 13 de outubro, às 18h30, tô lá num debate do ciclo Palavras Paralelas, no Castelinho do Flamengo. Vou falar sobre escrever, ou seja, pra não ficar chato preciso que vocês apareçam, perguntem coisas doidas, me ajudem a perder o fio da meada. Depois podemos esticar num boteco, pra diversificar a conversa [a organização do evento não ofereceu barris de chope].

O Palavras Paralelas faz parte de um projeto de revitalização do Castelinho [Centro Cultural Oduvaldo Viana Filho] criado pelo jornalista Marcelo Pacheco. O ciclo começa dia 22 de setembro, com Marcelo Moutinho (organizador do Prosas Cariocas), segue com o João no dia 29 de setembro e a Cristiane Costa (autora de "Pena de Aluguel", tô pra entrevistá-la e já colei por aqui várias citações do livro) no dia 06 de outubro. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail castelinho@pcrj.rj.gov.br, com número de inscritos limitados a 30 por palestra.

escrito às 8:28 AM por giannetti




7.9.05

A coisa mais difícil num blog que [vá lá, às vezes] fala num livro é não falar demais da conta sobre ele. Eu gosto mais dos comentários enviesados que do abre-aspas e cospe um trecho.

Costuma acontecer comigo achar que dei muita informação quando nem sequer abri a boca. Vou dando só os links conforme lançam os livros em que saem meus contos, pra ficar fácil achar em loja online. E, mesmo assim, só agora - esta semana - é que vou colocar ali à direita uma barrinha permanente com esses links, mais de um ano depois de ter saído meu primeiro conto numa antologia. [eu--- adoro os----- gaps ---- buracões ---- que eu mais gostava eram os.... "a fila ----------- insatisfeitos no ---------"]

[Porque somos muito interrompidos.]


escrito às 10:39 PM por giannetti




4.9.05

DECIDIDA A NÃO NOMEAR OBSESSÕES

"People always ask what a book is about, as if it has to be about something. I don't want to write books that lend themselves to that sort of description. My books are more a kind of breaking-down."

escrito às 9:32 PM por giannetti




2.9.05

SAMBA-ENREDO

No sábado, 3, às 17h, vou participar de um debate com Antonia Pellegrino e João Ximenes Braga na livraria Dantes. É a primeira edição do ciclo de debates "Propostas para samba-enredo", assim chamado não porque a gente vá discutir o trabalho de carnavalescos para 2006 mas... bom, o site explica.

A conversa faz parte do evento que terá ainda "matinê no cinema, brunch no ateliê, feira de livros, moda, fotografia, cds e brinquedos".






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