TRISTE EXERCÍCIO DE SER CARIOCA
O Rio de Janeiro foi atacado pelos hunos enquanto a gente enchia a cara
Misturei saquê, vinho e cerveja
Sete pessoas morreram queimadas
Uma menina foi à festa sem calcinha
Foram 18 mortos ao todo
Vi buracos de bala no prédio da Coca-Cola na Praia de Botafogo
Ora, ela sentou na pia da cozinha
"E o Escravos da Mauá amanhã?", agora o amigo quer saber via messenger
Sambaremos e beberemos cerveja via messenger, seremos amigos via messenger,
Encolhidos, dobrados feito o jornal da véspera
"Triste, hein?"
PORCO DE SILÍCIO
Eu estava lendo Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, página 30 da edição brasileira de 1972 da Abril, que fala dos hrönir, a duplicação de objetos perdidos. "Duas pessoas buscam um lápis; a primeira o encontra e não diz nada; a segunda encontra um segundo lápis não menos real, contudo, mais ajustado a sua expectativa. Esses objetos secundários se chamam hrönir e são, ainda que de forma desairada, mais compridos." Os hrönir eram "filhos fortuitos da distração e do esquecimento". Eu estava relaxada nesse conto, que para mim é uma zona confortável, embora eu nunca tenha sido capaz de produzir no mundo físico uma máscara de ouro, uma espada arcaica ou um milhão de dólares a partir da mera idéia de uma máscara de ouro, de uma espada arcaica ou de um milhão de dólares. Gosto de ser enganada por esse conto. Descansava nessa noção feliz da enciclopédia borgeana quando me lembrei do Porco de Silício.
Comecei a escrever a história do Porco de Silício num vôo para São Paulo em 2004. Ou melhor, fiz um esboço da história, que tinha a única qualidade de evocar em meia dúzia de páginas alguma dose do medo que o Porco de Silício tinha provocado em nós. Eu explicava não o que tinha sido o Porco de Silício, mas como o Porco nos tinha acuado. Porco de Silício foi como chamamos o que uma vez sacudiu as paredes da casa na Ilha do Governador, o nome do ruído que começou zumbindo quase imperceptivelmente e cresceu cada vez mais intenso, como patadas e passos largos de um animal obeso, imenso, feito de silício, o som grave que estava sempre mais alto e mais real, até se tornar a certeza de que se aproximava de duas pessoas reféns de uma alucinação partilhada ou - o quê?
Lembro que no esboço feito no caderno de capa laranja (o caderno que eu tinha comprado na Livraria da Travessa do Centro Cultural Banco do Brasil, para substituir provisoriamente o caderno "titular", preto e mais grosso, esquecido em casa, na pressa de fugir do calor para o ar-refrigerado da biblioteca) eu explicava que tinha decidido escrever a história do Porco de Silício como ficção porque era inacreditável. Quem ouviu falar do ataque - não por mim - não entendeu o ocorrido, uma vez que nada, propriamente, aconteceu, a não ser o pânico no quarto, o ruído que aumentava e as paredes que se fechavam contra nós. Não conseguimos alcançar a maçaneta da porta por mais de uma hora. "Mas por quê?" Por quê? Você tinha que ver. E no entanto não vimos nada, testemunhamos uma coisa que não estava ali mas chegava perto aos poucos, esmagando meu peito com um peso fenomenal, tirando nosso ar, fazendo o concreto zumbir feito uma casa de máquinas, do chão até o teto. Era o Porco de Silício. Depois, a família da pessoa que estava lá comigo achou o nome muito engraçado. Não me dei ao trabalho de contar a história para a minha. O nome é engraçado. Mas esse nome é a coisa que aconteceu, é o que encurralou duas pessoas e as deixou repetindo uma a outra entre dentes, e a cada repetição a mesma pergunta ganhava um sentido mais aterrorizante, "que é isso?", "o quê é?", e recorrendo sem vergonha em rezas curtas ao Deus avacalhado nas aulas de filosofia da faculdade, o que aconteceu é um Porco de Silício.
Em onze anos de amizade, completados na primeira semana de dezembro de 2006, eu e a pessoa que estava comigo em casa naquele dia - era dia, contrariando uma regra primordial dos mistérios - nos separamos pelo menos duas vezes; bobagens, mas, por mais graves e decisivos que parecessem os motivos dessas separações, sei que ele, como eu, tornamos a encontrar um ponto de vista comum quando pensamos no Porco de Silício. Voltamos às nossas convicções que nos permitem viver num mundo em que o Porco é uma piada ou um plot sobrenatural fictício, mas ele e eu sempre sabemos de outra realidade e do medo que de tão puro é invisível, ridículo porque não deixa saída e não se sabe como entrou.
Estava na página 30 do Borges e pensei no Porco de Silício e no caderno laranja onde escrevi o esboço quando me dei conta de que perdi esse caderno, e perdi o caderno preto, o que por dois anos havia sido o "titular". Não estão nas gavetas, não estão nas prateleiras, estão, muito provavelmente, perdidos no Queens. Talvez algum de vocês encontre meus cadernos, um pouco mais compridos, como costumam ser os hrönir, duplicação de objetos perdidos que serão, então, assim como aquela sua ceroula que desapareceu nas últimas férias em Araruama. Pense nisso.
CONTEMPORÂNEO
Na próxima semana, entre os dias 18 e 22, acontece no novo centro cultural Oi Futuro o Festival Contemporâneo. Tenho três textos em um livreto que será lançado e distribuído durante o evento, junto com histórias de outros autores como o André Laurentino e o amigo Cuenca. Os livros foram desenhados pelo Christiano Menezes (que só neste mês já lançou dois que saíram com cara de obra de arte: o Rio Bossa Nova, do Ruy Castro, e o Cidade Submersa, do Chico Buarque, com Regina Zappa e o fotógrafo Bruno Veiga).
Foi o próprio Menezes (presidente do Centro Recreativo Espaço Cultural e Clube de Dizáini Nascimento Menezes, associação cristã de moços e moças situada à Praia do Flamengo), também, quem criou as instalações baseadas em um texto meu e outra para um texto do Cuenca. Assim, estaremos ambos instalados lá com imagens do Chris, e narração dos textos feita por atores que o pessoal foi pescar no cinema e na TV. Os atores não falam ao vivo - é tudo integrado à instalação. Então, é dessa maneira. Tem livretos, tem instalações, artistas plásticos, gente do teatro (a Daniela Pereira, muito jovem e muito badalada diretora da nova turma), de vídeo, de dança, e nós, de escrevescreve. E tudo isso no ar condicionado do Futuro. O café de lá é uma beleza, o terraço tem uma vista bonita do bairro do Flamengo e internet pros afoitos viciados em ficar na rede. Rede antigamente era coisa pra tirar soneca, mas no Futuro, ou seja, no Contemporâneo, é sanha de conectar.
Tivemos uma prévia do que a festa vai ser quando reuniram todos os participantes para fazer fotos de divulgação. O encontro é... interessante (carnavalesco), até porque cada grupo costuma produzir isoladamente. A idéia do festival, desde o início, era combinar produções de áreas diferentes em obras únicas.
Digressiono. Apareça lá e pronto, a gente toma café.
SOBRE O HOMEM QUE COMEÇOU A VOAR DEPOIS DE CONHECÊ-LA
Quando ele a conheceu e eles gostaram um bocado um do outro, ele ouviu as coisas melhor, e em seus olhos as linhas do mundo físico ficaram mais nítidas do que antes. Ele ficou mais esperto, ele ficou mais atento, e ele pensou em coisas novas para preencherem seus dias. Ele levou em consideração atividades que antes haviam parecido vagamente curiosas mas que agora se mostravam urgentes, e que precisavam, ele pensou, ser realizadas com sua nova parceira. Ele queria voar com ela em uma engenhoca mais leve que o ar. Ele sempre tivera curiosidade a respeito de planadores, pára-quedas, ultraleves e asas-deltas, e agora sentia que esta seria uma faceta da nova vida dos dois: que eles seriam um casal que voaria por toda a parte, nos finais de semana e nas férias, numa pequena aeronave. Eles aprenderiam a terminologia. Eles se associariam a clubes. Eles teriam um tipo de trailer ou uma van bem grande onde colocariam suas novas máquinas e asas flexíveis dobradas, e eles dirigiriam até novos lugares para ver tudo do alto. O tipo de vôo que o interessava era o vôo próximo ao solo - menos que mil pés acima da Terra. Ele queria ver as coisas movendo-se rapidamente abaixo dele, queria ser capaz de acenar para as pessoas lá embaixo, de ver antílopes correndo e de contar golfinhos afastando-se em bando da costa. Ele esperava que esse fosse o tipo de vôo que ela queria fazer, também. Ele se tornou tão apegado à idéia dessa pessoa e desse vôo e dessa vida entrelaçada que ele não sabia mais o que fazer se aquilo não se concretizasse. Era estranho, no entanto, ele pensou, que enquanto o conceito desse vôo era dele, e que ele seria a força motriz por trás da execução desse plano, ele precisasse de outra pessoa, essa nova pessoa em seu mundo, para tornar-se apto a fazê-lo. Ele não queria fazer esses vôos sozinho; ele preferiria não voar a voar sem ela. Mas se a convidasse a voar com ele, e ela demonstrasse ter reservas, ou não estivesse inspirada, ele ficaria com ela? Ficaria? Ele decide que não ficaria. Se ela não dirigir a van com as asas cuidadosamente dobradas, ele terá que ir embora, sorrir e ir embora, e então ele vai procurar novamente. Mas quando e se ele encontrar outra parceira, ele sabe que o plano não será para vôos. Será um outro plano com outra pessoa, porque, se ele sair voando próximo à Terra, será com ela.
[Tradução de "About The Man Who Began Flying After Meeting Her", de How We Are Hungry, Dave Eggers].
DILUÍDOS
Eu canto os meus contemporâneos
Solitários peterpânicos
Vanguardistas natimortos
Labirínticos do desfio
Gagos
gagos
gagos
Sísifos
Sísifos
Sísifos
Reinventamos a roda com espelhos
Para facilitar na descida
Porque nos legislaram "Vomitai!"
Mas não nos deram comida alguma.
Henrique Rodrigues, "Arma virumque cano", em A Musa Diluída (Editora Record).
MEU NOME SIGNIFICA CEGUEIRA
Semana passada, trocando e-mails com o homem sobre histórias que escrevi, entendi que estava tudo em branco; as páginas iam saindo da impressora do jeito que haviam entrado, talvez até mais brancas do que quando as tirei do pacote. O homem do outro lado do micro, que imprimiu os mesmos textos, pode ter tido também a surpresa de ver que, lá, as páginas chegaram a sair transparentes. Eu escrevia, escrevia, escrevia e lia páginas em branco, ou que mostravam a parede atrás delas, ou a janela contra a qual eram colocadas na tentativa de se encontrar nelas algum sinal da tinta preta, em vez de o dia passando atrás.
ONDE DIABOS SE ENFIOU ALICIA KEYS?
Vídeo para aquela música em que Bob Dylan se declara tarado pela cantora, com textinho da Slate.com:
"Thunder on the Mountain," the chugging boogie-blues song that kicks off Bob Dylan's great album Modern Times, begins with images of apocalypse and moves swiftly to the singer's lust for Alicia Keys. This is followed by more End Times imagery ("All the ladies in Washington scrambling to get out of town/ Looks like something bad is going to happen, better roll your airplane down"), some leering double-entendres ("I've got the pork chops, she's got the pie"), tenderness ("I've been sitting down studying the art of love/ I think it will fit me like a glove"), bile ("I'll say this, I don't give a damn about your dreams"), and deliciously strange bursts of poetry: "Gonna raise me an army, some tough sons of bitches/ I'll recruit my army from the orphanages/ I been to St. Herman's church, said my religious vows/ I've sucked the milk out of a thousand cows."
p.s.: a lista de discussão E-Zine (parada obrigatória na web desde... 1998 ou 1999?, para quem escreve sobre cultura no Rio e em São Paulo, alternando informação, abobrinhas e brigas seculares), onde vi o link para o clipe, reflete no debate da semana o que já estava no ar faz algum tempo: banana pra MTV, diante da notícia de que o canal agora, decididamente, não quer mais saber de clipes - que, verdade seja dita, já não exibe lá muito religiosamente há anos -, preferindo dar destaque a programas chatíssimos. "Quem precisa de MTV", pergunta-se a geração que cresceu com ela, "se hoje é um site que lança o vídeo de um artista da importância de Dylan?"
E ainda é o site quem faz aquela velha promoção de dar aos fãs uma guitarra autografada pelo mestre; o tipo de investimento que, antes, uma gravadora só colocaria mesmo nas mãos de uma emissora de TV ou rádio. The times, they are a´changing.
DIFTERIAS
Tá lá, no site novo da Mariana Costa, a instalação da artista plástica exibida entre junho e julho de 2006 na galeria Plumba, em Lisboa. Tem haikai meu [o primeiro que fiz, tímido, mas muito orgulhoso de acompanhar a obra da moça].
Texto de Mariana para a exposição:
Reuni recentemente numa exposição, um conjunto de desenhos sob o título de Crónikas. O "k" da palavra crónikas, assim expliquei, distingue-a graficamente das crónicas _que são do meio literário. No entanto, num sentido, aproximam-se, citando: "No sumário de uma revista a crónica representa, a parte do efémero, a futilidade, opõe-se aos artigos de fundo, carece de peso e encosta-se à margem, já que não pertence ao mundo do sério. Por definição, o tema da crónica participa deste rótulo: sua inspiração é o acontecimento quotidiano."1
Assim, para a sala da galeria plumba, construí uma crónika a 3 dimensões. Difterias, insolações e outrosesquentamentos - exasperações para pegar ou largar, é uma crónika 3d (lâmpadas, madeira, vidro, vinho, canela, cravinho, serapilheira,..) e tem a colaboração-haikai da Cecília Giannetti.
Em seguida, um texto de Jorge Listopad, com o título "Ofício", que pesquei para o "difterias" - também imagem:
"Tenho 30 esferográficas mas quando escrevo, escrevo só com uma. Tenho o bloco com muitas folhas mas quando escrevo, escrevo só numa, depois noutra, and so on. Tenho muitas palavras em várias geografias mas emprego só algumas, umas atrás das outras, nunca duas ao mesmo tempo. Tenho imagens. Minhas. Por exemplo, do professor catedrático. Tenho também imagens emprestadas. Por exemplo, do toiro na lezíria. Mas mesmo emprestadas, as minhas imagens são minhas. O que faço com elas? Proponho-as à meditação, mediante uma das 30 esferográficas, nas bem contadas folhas do bloco, em palavras duma só geografia, nem mais do que é preciso.
Assim, entendo o meu ofício de domingo. O domingo é o sétimo dia da semana, o sétimo da minha vida. É diferente, bem se vê, dos outros seis sétimos, enquanto as esferográficas descansam, o bloco está fechado e as palavras não vestem as imagens.
Contudo, as putas das imagens, as minhas e as emprestadas mas também minhas, circulam no mais pequeno espaço considerado invisível."2
1. Patrick Besnier no prefácio de Siloquios, superloquios, solilóquios e interloquios de patafísica, alfred jarry, Pepitas de calabaza ed., 2003
2. Listopad, Jorge, Estreitamento progressivo, &etc ed., 1983
[Ceclia giannetti - http://www.escrevescreve.blogger.com.br]
ENCONTRO
Todo mundo com cara de criança. E olha que a foto não data do século passado, é outubro de 2001. JP hiperbolizou no Globo sobre a nossa produção e aventuras, num texto sobre a gente. Sem exagero, porém, no que diz respeito à durabilidade e importância da Liga em nossas vidinhas, já passamos coisas do arco da velha juntos. Ver a foto agora [graças a quem clicou, Helena Nacinovic, e ao Nix, que recuperou], acendeu uma lâmpada ou duas em cantos que estavam meio apagadões no passado recente. Vou te contar, não somos de se jogar fora, não, seu João, Seu Carlos Gustavo, seu Alexandre, seu Márvio... no sentido inter-existencial da coisa. [Aprendi com o Gil].
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Hoje em dia, a coisa realmente revolucionária a ser feita pelos "novos autores" é sair da internet e se encontrar no bar, na rua.