TRECHO
"Inseto", em Dentro de um Livro (Casa da Palavra)
Eu vou dar várias voltas pra falar do meu livro preferido, "Lugares que no conozco, a la gente que nunca vi". Não vou entregar o final porque nem sei o que acontece, está tudo em espanhol (começo, meio e fim, se tiver isso). Mas eu penso muito nas anotações das margens: "ZANZARE Mesmo afundado no pufe, o trono rasteiro e movediço que o distinguia como rei do canto mais escuro da sala, seu corpo parecia não acumular nenhuma dobra em parte alguma. As costas curvadas pra frente e os joelhos projetados acima transformavam seu estômago num arco que lembrava perfis famélicos vistos em qualquer bloco do Jornal Nacional sobre guerras na África. Bem em cima da curva da fome, sua camiseta apresentava um pequeno furo. Esse buraco quase imperceptível no tecido só se revela uma marca registrada dele quando você o encontra pela terceira ou quarta vez seguida; e aí, nota que todas as suas camisetas, embora de cores diferentes (porém nunca diferentes de cinza e preto), têm um furo mais ou menos do mesmo tamanho e mais ou menos no mesmo lugar. Essa pinta de nascença de pano, oca, concede a única amostra da verdadeira cor de sua pele a que pude ter acesso. É como a aparição de um fantasma microscópico na barriga de alguém. Se os braços e as mãos e o rosto e o pescoço eram muito brancos, o que se via através do ponto aberto na camiseta tinha o matiz correspondente a uma década ou mais de recusas a convites para praia e churrascos à beira da piscina dos condomínios. O cabelo, a grama escura, espessa e lisa aparada rente demais à cabeça, deixava tão pouco para ser adivinhado sobre o formato do seu crânio como as palavras que escolhia acobertavam a confusão dos seus pensamentos. Ele é magro e calado como um inseto." (Teia-polaroid, páginas 180/181).
(...)
"Beijar o gato entre as orelhas é uma forma de solidão. Lavar a louça às três da manhã, apreciar muito a própria letra, ouvir a brasa comer o papel do fumo no silêncio. Acreditar nas estrelas que passam com mais pressa. Deitar sozinho. Às vezes deitar acompanhado também. Ter um casaco de lã cinza-escuro que não lava há dois invernos. Acompanhar um seriado (americano). Achar-se inadequado e esquecido ou achar-se bom demais pros outros. Possuir nesse vasto mundo apenas um cabideiro. Beber destilado em copo plástico, esquecer o aniversário da amiga. Ver televisão com fantasma, ouvir rádio desligado da tomada. Conversar em fila, falar alemão, detestar turista, abrir mão de. Viciar em remédio pro nariz, ganhar na loto, guardar papel de presente, saber cerzir, não ser fascinado pela tecnologia, amar gadgets que não sabe usar. Não amar ninguém. Telefonar a cobrar de um orelhão na chuva pra outra cidade, chamar o garçom pelo nome e ser chamado pelo nome por ele. Concordar que o rock morreu. Escrever sem expectativa. Confiar no conselho da manicure. Escrever cartas, não enviar cartas. Às vezes mesmo enviá-las é uma forma de solidão. Sentar na segunda fila no cinema, botar bebedouro pra passarinho na janela. Dormir com a caneta na mão."
CONSELHOS
Reli esta história na semana passada, enquanto K. tentava fazer uma torta de limão pro marido. E é uma história tão antiga quanto cozinhar pro marido, ou ainda tão antiga quanto a idéia de um marido na sala, esperando por uma torta de limão.
A historinha é assim: Hemingway bebe seu vinho tranqüilão num café em Paris, até que encontra Ford Maddox Ford, autor de O Soldado, por quem o escritor-pugilista não tinha um pingo de apreço. Odiava-o, para ser mais exata. Mas a chamada vida literária - a convivência forçada que determinava seus encontros, momentos de angústia profunda vividos em livrarias e, justamente, cafés - obrigava Hemingway então a certos sacrifícios, como debater as questões idiotas apresentadas por Ford Maddox Ford em vez de ignorá-lo completamente.
- O que é que você estava escrevendo? - Cometi (diz Hemingway) o erro de perguntar.
- Estou escrevendo o melhor que posso. O mesmo que você faz. Mas é tão terrivelmente difícil.
- Não deveria escrever, se não consegue fazê-lo. Por que motivo há de se preocupar por isso? Volte para casa. Arranje um trabalho. Enforque-se. Apenas não fale nisso. Nunca poderá escrever.
- Por que me diz isso?
- Você já se ouviu alguma vez quando fala?
- Mas é de escrever que estou falando.
- Então cale-se.
Hemingway era, já nos anos 20, o que hoje conhecemos como tolerância-zero. Se lhe torravam o saco, ele mandava pro inferno. Na minha opinião, diante do monte de merda que lhe diziam, era até fino.
Pois eu ria da história com o livro (Paris é Uma Festa) na mão, sentada num banquinho na cozinha de K. depois de um dia de trabalho (para o Portal Literal, que edito) num colóquio em que ouvi críticos discorrerem sobre a produção literária contemporânea. Mais ou menos refeita, bebia meu terceiro café quando K. detectou um problema na tigela que percorria com a batedeira: bateu duas claras de ovos, adicionou três colheres de açúcar, conforme mandava a receita anotada num daqueles caderninhos da Taschen com foto de mulher dos anos 50 pelada na capa. Mesmo assim, a mistura não ganhava a consistência de claras em neve. Qual era o ponto, por que não chegava nele?
K. se perguntava em voz alta o que poderia estar errado com a torta. Mas eram 21h de uma noite do início do século XXI, eu estava irrequieta por causa da cafeína e da saudável agressividade do Hemingway, e jamais soube cozinhar nem sopa instantânea sem errar a mão. A solução era telefonar pra avó de K. e perguntar como funcionava o curioso ofício de preparar torta no início do século passado. Eu tinha as mãos limpas, sem a lama do açúcar e dos ovos, então fui escolhida para ligar e ouvir os conselhos sobre as claras:
- Vai batendo, batendo, batendo, que você chega lá - disse a avó de K.
O melhor conselho culinário de todos os tempos é também o melhor conselho para o ringue (talvez o único possível, Hemingway teria feito bom uso dele em suas lutas) e ainda o melhor conselho literário.
RISOS
"Na atual Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), o Transtorno Delirante Persistente é caracterizado pela ocorrência 'de uma idéia delirante única ou de um conjunto de idéias delirantes aparentadas, em geral persistentes e que por vezes permanecem durante o resto da vida'. Também conhecido como paranóia, diferencia-se de outras psicoses pela união dos delírios em um contexto organizado, lógico e até verossímil."
QUERIDO SUÍNO
Esta é para o que, covardemente, se escondeu atrás de um nome genérico no blog do SR. Sabemos quem é. Notório chupim, vivia puxando o saco de quem hoje chama de desonestos, etc, dos que "vão viajar".
Seu sentimento de inferioridade e ressentimento foi inteiro traduzido numa frase que só um cabeleireiro invejoso seria capaz de produzir. Para chegar a escritor, é você quem deveria tentar ser mais elegante. Não é malhando que se chega lá. É escrevendo. Um suíno, no entanto, não compreenderia meu comentário.
Nunca mais estenda seu aperto de mão mole a nenhum de nós, não apareça a nossa porta, como já o fez tantas vezes - tendo sido bem recebido, voltava -, não se faça de gente; porque, conosco, o disfarce não cola mais.
QUERIDOS FILHOS-DA-PUTA
Do blog do Joca Reiners Terron:
"Chega de leviandade, mau caratismo e dor-de-cotovelo e vamos ao que interessa:
A) O dinheiro que entrará no meu bolso (R$10 mil pelos direitos de adaptação audiovisual do romance que escreverei para a coleção Amores Expressos, a ser publicada pela Companhia das Letras) virá do bolso do Rodrigo Teixeira, dono da produtora RT Features e criador do projeto (segundo a Veja de 28/03: "Rodrigo Teixeira diz já contar com R$400 mil para o projeto, o que garantiria todas as viagens"). De acordo com o contrato, serão R$3 mil em maio (quando embarco para o Cairo, onde a história obrigatoriamente deverá se passar) e R$7 mil quando entregar o original;
B) Frisando: essa grana virá do cofrinho do Rodrigo Teixeira, caro contribuinte e leitor falho dos suplementos de cultura e blogues literários, e não do seu porquinho de porcelana ou do meu;
C) O dinheiro que pagará passagens e gastos com hospedagem igualmente virá do cartão de crédito ou do cheque especial do Rodrigo Teixeira, caro analfabeto funcional leitor dos mal intencionados artigos de jornalismo esparramados por aí. Tranqüilize-se, não será você a pagar os juros. E nem eu;
D) Os hipotéticos R$5 mil de adiantamento referentes a 10% da tiragem do livro (que ainda será escrito) serão pagos pela Companhia das Letras, editora que também se encarregará de publicar o livro com os seus próprios recursos, e não com os seus níqueis suados, caro idiota amante das fofocas e das pragas;
E) A grana que financiará filmes, documentários, extras de dvd ou o que caralho for, virá de um projeto inscrito na Lei Rouanet que está tramitando nos corredores do Ministério da Cultura e, conseqüentemente, ainda não foi aprovado, além da bufunfa que lhe corresponde ainda não ter sido captada (de novo cito a Veja: "A captação de recursos através da Lei Rouanet -- ainda não autorizada pelo Ministério da Cultura -- entraria para garantir extras, como a produção de um documentário"). Quando e se for, eu já terei entregue meu romance (cujos direitos de adaptação já foram vendidos) e diretamente (tá tá tá: eu sei, também sou contribuinte; tá tá tá: eu também acho que é chegada a hora de reformas drásticas na Lei Rouanet), não terei mais nada a ver com isso;
F) Entendeu ou quer que eu repita, filho-da-puta?
[ Se você não se enquadra em nenhuma das categorias de gente medíocre e ressentida listadas acima, por favor não se ofenda. Já você aí, é, você mesmo, vista sua carapuça e vá tomar no cu. ] "
DO NO MÍNIMO
Não tenho mais nada a dizer sobre o circo que se armou desde que foi divulgado o projeto Amores Expressos, do qual faço parte como autora. Repito o que afirmei antes: Não tenho outra maneira de justificar minha participação neste projeto além de escrever a história que ele pede de mim.
No blog de literatura do No Menino foi publicada a opinião do Sergio Sant´Anna, que reproduzo aqui:
"Os sentimentos que mais inspiram a escrita são a raiva e o medo, o pavor." SUSAN SONTAG
"Com a palavra, Sérgio Sant´Anna
Sérgio Sant´Anna, um cara respeitadíssimo aqui no blog, não só como escritor mas como amigo, me pede que publique o recado abaixo sobre a polêmica do projeto "Amores expressos", que ele integra (vai para Praga):"
Avisado por uma amiga que comentários irados e espumantes estavam chegando em grande quantidade à coluna Todoprosa, no site NoMínimo, fui lá conferir. E, na verdade, apesar dos ressentidos e invejosos (poucos) achei a coisa muito bem humorada. Mas é repugnante que um mau-caráter como o tal de Arnaldo diga que eu fui ao Programa Internacional de Escritores, na Universidade de Iowa, EUA, com uma bolsa da Ditadura Militar. Fui selecionado para o programa pela Fundação Ford, que me concedeu a bolsa e passagens, para mim e minha mulher. Isso depois de uma apreciação de meu livro de estréia, O sobrevivente, em edição das mais modestas, custeada por meu pai, com um empréstimo que nunca paguei. Também o pessoal da Ford no Rio me submeteu a uma entrevista. Arnaldo também dá uma de dedo-duro falando na caixa de maconha que me apresentaram, como boas-vindas, assim que cheguei. Mas que tolice, maconha lá era fumada como aqui se toma cafezinho. E garanto a todos que a vida americana, naquela época, era muito melhor do que na era Bush. Quanto às minhas relações com a Ditadura, eu respondia na época a um Inquérito Policial Militar, presidido pelo Marechal Nilo Horácio de Oliveira Sucupira, por minhas atividades subversivas no exercício de minhas funções de Auxiliar de Escritório e sindicalista, na Petrobrás, meu primeiro emprego, em BH. Décadas depois fui anistiado e meus documentos estão lá, na Comissão de Anistia. Mas prefiro terminar essa nota brincando com Marcelo Mirisola. Meu caro Mirisola,você se esqueceu de que no ano passado me pediu uma carta de recomendação para uma bolsa da Secretaria de Cultura de São Paulo, para ser sustentado, só escrevendo, durante um ano? Não se lembra de que recomendei você como uma verdadeira sumidade de nossas letras? Será que o seu ressentimento de agora é por se considerar um bolsista municipal, enquantos outros vão escrever, como eu, em lugares lindos e que inspiram amores, como Praga? Mas concordo que você foi injustiçado, não sendo incluído em Amores Expressos. Sugiro que essa injustiça seja reparada e você vá escrever uma história de amor na Transilvânia. Abraços.
Sérgio San´Anna.
BERLIM
Agora que saiu na Folha eu já não guardo mais segredo: vou passar um tempo em Berlim para escrever um livro. Mais 15 autores irão para outros lugares do mundo fazer o mesmo, como parte de um projeto louco, maravilhoso. Não tenho outra maneira de justificar minha participação neste projeto, que se chama Amores Expressos, além de me empenhar em escrever o melhor que eu puder a história que ele pede de mim. A pressão aumenta por estar ao lado de nomes como Sergio Santanna, Lourenço Mutarelli, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Bernardo Carvalho, nomes de outras gerações que os estreantes e recém-lançados autores incluídos no projeto já lemos e respeitamos. Assustador.
Colo abaixo a matéria de Cadão Volpato sobre o Amores Expressos que a Ilustrada publicou hoje:
Bonde das letras
Um grupo de 16 autores brasileiros, veteranos e novos, embarca para 16 cidades do mundo para escrever uma história de amor
Você é um escritor sem dinheiro, lutando pela sobrevivência. Tem, segundo suas próprias palavras, "apenas um dia de príncipe ao mês". Você emigrou dos quadrinhos para a literatura, vendeu os direitos para o cinema dos livros que publicou, mas ainda desenha uma última história de despedida.
Um dia, aparece um sujeito oferecendo um mês de estadia em Nova York, onde você nunca esteve, com todas as despesas pagas e a única obrigação de retornar com uma história de amor na cabeça, que depois será publicada por uma das maiores editoras do Brasil.
O escritor em questão existe, é Lourenço Mutarelli, um dos 16 autores brasileiros a caminho de 16 destinos diferentes no mundo, para viver uma experiência -qualquer experiência-, voltar e escrever um livro.
A coleção se chama Amores Expressos e foi idealizada por Rodrigo Teixeira, um jovem Quixote de pés bem plantados no chão. Teixeira já foi chamado de maluco na sua primeira experiência na área de cultura. Ele tinha 21 anos e quis publicar uma coleção de futebol.
No começo, ninguém quis saber. Bastava pensar na combinação improvável do assunto futebol com a cara de garoto do proponente para saber: não ia dar certo.
Pois Teixeira conseguiu um patrocinador tão apaixonado quanto ele ("Aos 45 do segundo tempo da minha vida", diz), chamou 13 autores expressivos e criou uma coleção de futebol, a Camisa Treze, que vendeu, no total, cerca de 350 mil livros.
Desde então, Teixeira tem inventado diversos projetos multimídia: "Um livro que pode virar um filme que pode virar um DVD que pode virar um programa de televisão", diz.
Assim nasceu a idéia da coleção Amores Expressos, que ele divide com o escritor João Paulo Cuenca, autor de um único romance, "Corpo Presente", e de uma novela entre as três do livro "Parati Para Mim", em que os autores passaram uma temporada na cidade para escrever uma pequena história.
Já os 16 afortunados viajantes da coleção da Companhia das Letras vão ganhar o mundo, a partir de abril, quando embarca a primeira leva.
O dinheiro para essa aventura -cerca de R$ 1,2 milhão, contabilizando todos os produtos finais- vem, em parte, da Lei Rouanet. Todos os autores recebem o mesmo valor pelos direitos autorais e pela cessão de direitos ao cinema.
"Estamos num momento fértil, em que a literatura brasileira vem encontrando novos nomes", diz o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras. Para ele, o projeto também vale como garimpo, por conta de seus escritores novos e novíssimos. Os títulos devem ser publicados ao longo de quatro anos pela editora.
Histórias de amor
"Quase todas as histórias do mundo são histórias de amor", diz Bernardo Carvalho, destino São Petersburgo, Rússia. A afirmação surpreende, vinda de um escritor cerebral, mas sinaliza a disposição de quase todos os autores.
"Dá para ambientar romances até na Lapônia, como no filme "Os Amantes do Círculo Polar'", conta Adriana Lisboa, destino: Paris.
Filme, aliás, é o formato embutido e desejado nessas histórias que serão gestadas no exterior. Não só isso: uma equipe de filmagem deve acompanhar os viajantes por três dias, retratando sua experiência para lançá-la em um DVD futuro.
Para o veterano Sérgio Sant'Anna, destino Praga, a viagem lembra um filme antigo: ele já esteve na cidade, com a família, em 1968, um pouco antes dos tanques soviéticos.
"Sinto Praga como um cenário perfeito e até com um mistério poético para uma história de amor. E há toda aquela magia de ser a cidade de Kafka. Sinto que a novela nascerá e fluirá a partir do que sentir lá."
Ao imaginar as estadias dos 16 escritores, Cuenca e Teixeira pensaram em criar "ruídos". O próprio Cuenca pretende se perder em Tóquio. Chico Mattoso, inédito em romance, encara o socialismo musical e decadente de Havana, uma festa para os sentidos. "É isso que faz você escrever e ter idéias. É tirar o seu chão", diz a colunista da Folha Cecilia Giannetti, destino Berlim.
O "U" E AS ALÇAS DA MALA DE VIAGEM
Ontem comentaram comigo: "Brasileiro é colonizado. Bastou você ir para NY - e voltar - que passaram a te levar a sério." Referiam-se à coluna na Folha de S. Paulo.
Ou seja: meu trabalho, o tempo que tenho gasto escrevendo por aí, nada teriam a ver com o fato de um dia passar a publicar uma coluninha num jornal. Os contos nos livros (veja aqui, à direita, a barra de links com as capas dos pobres livrinhos); as matérias, mesmo as crônicas já publicadas noutros jornais, revistas, e a minha ralação diária na internet há dez anos - nada disso teria concorrido para que eu merecesse um espacinho debaixo da Bergamo. De acordo com a teoria, o que me "deu" a coluna foi o fato de eu ter vivido seis meses fora do país no ano passado.
Tieta do Agreste.
O fascínio dos rituais mágicos: passe pela porta do Aeroporto Internacional e tua sorte vai virá, mizifio.
Ou: pise em território estrangeiro, dê uma voltinha (dança-da-chuva style) e volte com um pouquinho da terra do chão de acolá, grudada nas solas dos sapatos, que tudo vai se arresorvê.
Ê-ê.
Se as coisas funcionassem dessa maneira, nossos dois presidentes dos mais viajadeiros que já tivemos - Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva - já teriam resolvido todos os problemas do nosso país. De tanto que já saíram do território nacional e a ele retornaram, a teoria mística - caso não fosse apenas mística - já teria surtido seu efeito sobre os problemas desses colonizados todos cá nos trópicos.
Mas de nada adiantaram as viagens internacionais de nossos presidentes.
Então, na real, o que tem o "u" a ver com as alças?
Igualmente nada. Porque se fosse fácil assim, as filas nos aeroportos brasileiros estariam muito mais confusas, lotadas de gente querendo trocar trabalho, ralação, pela mandinga de viajar ao exterior.
Como diria o Misto Eleazar, mago das letras truncadas da internet: reflitm ok (é assim mesmo, a escrita Mística, sem "a" e sem vírgula).
***
Mas não é que a maioria só me deu os parabéns e mandou e-mail dizendo que gostou da coluna? Obrigada (inserir emoticon).
LYGIA
A entrevista por telefone estava marcada, mas nada de a ligação acontecer. Até que aconteceu. Eu esperava entrevistar uma imortal premiada e ponto, acabei segurando o choro. Ela começou citando Santo Agostinho e fechou com a Bíblia. No meio, disse que o escritor altera o mundo escrevendo. Mesmo num país de analfabetos miseráveis.
Podem chamar de clichê, podem me chamar de coração-mole. Mas precisaria ter sangue de barata para passar por uma conversa dessas sem um engasgo. Não descrevo nem metade do que ela me disse.
BOMBANDO
Zuenir Ventura está mais moderninho que muitos novos autores que circulam por aí. No sábado passado, fez uma incursão à rave que aconteceu no Riocentro, como parte da pesquisa de campo para seu próximo livro. A pesquisa foi até o sol raiar. E, para não ficar atrás, Heloisa Buarque de Hollanda entrou para o universo tridimensional do Second Life. "Escolhi como avatar uma japonesa com cara de psicopata", conta Heloisa.
AVERBUCK
Murilo Salles avisa: fechou esta semana o título do filme inspirado no livro Máquina de Pinball e no blog da escritora gaúcha Clarah Averbuck. Estava em dúvida entre Impressão digital e Nome próprio. Depois de uma pesquisa entre amigos e colaboradores, escolheu a segunda opção. Editar o longa-metragem foi mais difícil: "Não desejo para ninguém ter que cortar duas horas e meia fora de seu filme," comentou o cineasta. Após o corte, Nome próprio ficou duas horas e 40 minutos de duração. Belíssima na pele da personagem Camila, alterego de Clarah, a atriz Leandra Leal agora leva tatuado nas costas o coração que a escritora gaúcha tem no braço. Ficaram amigas.
Fiz um trabalhinho de texto no filme, que ainda não sei se chega ao final cut da parada. Torço para que role.
PERFIL
Colunista quer falar do "grotesco do cotidiano" com bom humor
A carioca Cecilia Giannetti, 31, que estréia na Ilustrada, lança romance este ano
DA REPORTAGEM LOCAL
"Pode falar o diabo", sugere, bem-humorada, a escritora Cecilia Giannetti, quando a reportagem pede que ela se apresente ao leitor na estréia de sua coluna na Folha. "Espero que consiga mostrar na coluna o grotesco do cotidiano com algum senso de humor. Peguei leve na primeira. Na próxima, falarei dos meus mendigos de estimação", avisa.
Carioca, nascida em 1976, filha de pai médico e mãe assistente social, Cecilia morou boa parte de sua vida na Ilha do Governador, zona norte do Rio. Fã do argentino Julio Cortázar e do norte-mericano Jonathan Safran Foer, publicou contos em antologias das editoras Record, Ediouro, Casa da Palavra e, na Itália, pela La Nuova Frontiera. Também colaborou com as revistas "Trip", "Piauí" e "Vogue". Neste ano, ela lançará seu primeiro romance, "Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi", pela Agir.
"O livro conta a história de uma cidade virada pelo avesso porque a narradora, uma apresentadora de TV, não consegue ver o mundo como ele é, depois que ela testemunha um ato de violência terrível", adianta.
O segundo romance, que já está a caminho, será menos duro: contará a história de uma menina que vive numa família de judeus e macumbeiros. O bom humor, como se vê, é sua marca registrada: ela conta que, em 2006, deu uma "respeitosa bitoca" no escritor Gay Talese, em Nova York, onde trabalhou num bar. A escritora diz ainda que fez três anos de boxe tailandês, chegando à faixa laranja. E procura o amor por onde vai. Enquanto ele não aparece, contenta-se "com um uisquinho".
NA FÔIA
Para quem tem senha de acesso - própria ou roubada - aí vai o caminho das pedras para me ler na Ilustrada.
Para os que chegam ao blog via Folha, pela primeira vez, vale explicar que este aqui é meu espaço para cometer algumas chulices, comentar a vidinha de escritor e fazer propaganda dos meus livros. Olha eles ali, na barrinha lateral à direita.
Ainda neste semestre, sai meu primeiro romance, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Que demorou um pouco a ficar pronto porque eu tinha uma tendência incontrolável - agora, finalmente, sob controle - de deletar páginas em vez de submetê-las ao crivo de outros escritores ou do editor e receber uma opinião não-paranóica.
Muitos pensam que consegui esse espaço na Folha porque - segundo história que circula pelaí - certa vez dormi com o Cony. O que aqui pretendo esclarecer:
Estávamos eu e Cuenca numa palestra sobre jornalismo e literatura na Academia Brasileira de Letras. De repente comecei a cochilar, encostada no meu assento da platéia. Cony, lá da mesa de palestrantes, também parecia dormitar um pouco. E foi assim que dormimos juntos. Mas quase posso garantir que isso não contribuiu para que eu ganhasse a coluna na Folha.
FOLHA DE S. PAULO
Amanhã começo a publicar uma coluna semanal na Ilustrada da Folha de S. Paulo. Se não puderem elogiar meu texto, enviem e-mails ao editor do caderno falando bem das minhas pernas (depois do spinning as coxas estão melhores que muito parágrafo que se publica por aí).
HORAS
"(...) ontem consegui afinal escrever o conto do galo, mas com que trabalho! que dor de cabeça, que sofrimento, das onze às quatro da manhã sem descanso, para no fim acabar desconfiado que saiu uma droga (...)". Sabino, Cartas na mesa.
Para vocês, que andam desconfiados do uso que faço das minhas horinhas; que reclamam de falta de chope; que ficam "magoados". Paciência. Inda vou ali hoje, dar um pulinho em São Paulo. Mas é um pulinho mesmo, nem fico nem nada. Aeroporto, janta, aeroporto. Por isso nem digo olá.
DIDIMOCOLIZAÇÃO DA TELEVISÃO
A BB aparece hoje no programa do Michel Melamed, recorte cultural, da TVE. "Passa 20h e repassa 24h", ela diz, lembrando que suas entrevistas costumam lembrar nosso velho ídolo do humor infantil, "Com as duas mãos na boca: - Eu vô me suicidá, eu vô me suicidá!".
KEN KALFUS
Conta como é viver pra lá e pra cá:
For Kalfus, who has also lived in Dublin, Paris and Yugoslavia during the past decade, the most recent homecoming was by far the sweetest: He was back to publicize his first book, a masterful collection of short stories titled "Thirst." Kalfus, who's 44, spoke with Salon not just about his fiction, but about such topics as the allure of baseball, why you shouldn't drink the milk in Moscow, why writing good journalism is harder than writing fiction -- and why success can be sweeter when it arrives later in life.
It seems you've lived almost everywhere in the last decade -- what's the impetus to keep moving?
I've lived a year in Paris, two years in Dublin, a year in Yugoslavia and now four years in Moscow. Adventure, the idea of adventure, is what keeps me moving. When you live abroad, even your ordinary daily life is very stimulating. I have a Yugoslav friend who says that when you're abroad, nothing's provincial. Just the idea of going out to get your milk and coffee is an adventure. You see everything fresh. It gives you a chance as an adult to see things in a more childlike way. Now that I have a child who is seeing things for the first time and remarking on them, I realize how much a child's point of view is similar to an artist's. If you're trying to be an artist, it helps to see things in the fresh light of living abroad.
ESCRITÓRIO 2
- Mas o que o Rodrigo Santoro foi fazer no seu trabalho?
- Ah, ele tava meio lost...
(Uma vez ao ano tenho direito a fazer uma piada boçal dessas. Combinado?)
ESCRITÓRIO
Promete muito um dia que começa comigo caindo em cima do Fausto Fawcett no metrô ("Desculpa, senhor"... senhor. Onde é que eu penso que fui educada? Por professores particulares, na minha mansão em Pemberley?).
À tarde, entra Rodrigo Santoro pelo escritório. Rodrigo Santoro de camiseta branca e jeans e mochilinha nas costas. Pára com isso, Rodrigo Santoro. O que você está fazendo aqui? Aqui é o Portal Literal. Passamos o dia lendo umas coisas e escrevendo outras. Pára com isso. Pára.
Ainda não descobri o que ele está fazendo aqui. Foi para uma sala que temos lá nos fundos.
Rodrigo Santoro. Por que esse assanhamento repentino com Rodrigo Santoro? Porque não é todo dia que ele entra no meu local de trabalho.
Pára com isso, Rodrigo Santoro.