DO RAMO DE VÍRGULAS E TRAVESSÕES
If there were just one thing that I could teach all aspiring writers, it would be that despite lofty ideas of creating art or the firm belief that you “just write and let someone else worry about the rest,” the truth of the matter is that publishing is a business. Writing by itself can be a hobby or a lark, but once you cross the line into the realm of publishing, where you put your work out there in the hopes of selling it and seeing it on the shelves, you are talking bottom line, down and dirty business, with emotions and personalities put way back on that rear burner. And when you’re dealing with business, that means you need to learn to be a professional, even down to the simplest correspondence.
Domestique seu bicho.
JORNALISMO DE INVENÇÃO
O pessoal do Jornal do Brasil descobriu enterrado em seus arquivos um curta dirigido por Nelson Pereira dos Santos sobre o JB, realizado em 1965, quando o cineasta ainda era copidesque do jornal.
O link para assistir ao filme é este.
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E por falar em cinema; e por falar em jornalismo: por esses dias, coincidentemente um assunto tem andado em pauta em conversas que escuto por aí, e leio na web (numa lista de discussão de que participo, vejamos... desde que a internet era discada e eu ainda não havia dobrado a esquina dos 25 anos). Entre queixas de repórteres que acabam de se formar e procuram o primeiro emprego, e lamúrias das putas velhas de redação, dou meus dois centavos.
Tem repórter que é excelente ficcionista. Mas quem lê jornal não procura ficção. Exceto por uma ou outra crônica, o leitor das folhas procura mesmo é notícia e reportagem feita por quem sabe do que tá falando.
Matéria de "comportamento" é a seara mais fértil do jornalismo de invenção (termo emprestado do cinema de invenção, sem a originalidade deste no que representa), em moda hoje. Nesse caso a pauta surge de uma idéia pré-concebida, não de uma cena cultural existente; e aí o repórter sai à caça de um nicho no qual possa colar sua percepção pronta. Por exemplo: para escrever uma matéria sobre "noite", a boemia carioca etc., não é necessário freqüentá-la: basta colocar uns bêbados falando que tal boate é dez e barzinho tal é novemeio. Se não encontrar os "personagens" (acredite, isso é possível quando a pregui é grande e o pré-conceito muito diferente da realidade), é só inventá-los.
Todo repórter de caderno cultural e suas variáveis devia passar por alguns anos de estágio cobrindo geral, polícia, IML, esses bichos. Porta de delegacia. Porque aí, se inventar, ó.
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Aproveito pra linkar a crônica do Ferreira Gullar, sobre como sua biografia tem sido enriquecida nos últimos 50 anos por invenções de jornalistas, amigos e conhecidos. Enjoy.
[eu tô aqui, eu e uma pilha de realidades brigando com o necessário ócio e a procrastinação criativa. demoro, mas volto.]
FOLHA DE S. PAULO
São Paulo, terça-feira, 08 de abril de 2008
CECILIA GIANNETTI
Ladrões de bicicleta
Os guris estavam armados com cacos de vidro; eles brincavam com um carrinho de madeira segundos antes
"TÔ COM UMA pistola aqui. Continua andando, me dá a carteira, me dá o celular, não pára, não olha pra trás." Quem paga pra ver? Não é o mais indicado. Aparvalhada com a abordagem repentina às 14h de domingo em Laranjeiras, entrego cada item exigido -pois o cara segura o que pode ser uma arma. (É uma pistola, ou uma embalagem de xampu muito esquisita). Ele está de bicicleta, última moda entre os assaltantes no Rio de Janeiro.
Quando nos abordou, parecia ser só um cara mal-educado pedindo passagem numa calçada estreita. Mas não demorou a fazer ameaças. Nada levou da minha amiga, embora ela estivesse à beira da calçada e de bolsa a tiracolo; de bicicleta eles devem assaltar sempre uma pessoa só de cada vez, levando apenas o que cabe nos bolsos. O alvo preferencial era eu, com essa cara de gringa que faz com que ambulantes na praia me ofereçam "bíer" R$ 2 mais cara até que eu abra a boca e diga qualquer coisa em carioquês.
O ladrão não queria fardo além de carteira e celular. E minha amiga já havia sido assaltada faz bem pouco tempo por dois travestis na rua Augusta, em São Paulo... quem sabe haja um código secreto entre bandidos -travestidos, ou não-, delimitador de um prazo, algo como um período de carência, que deve ser obedecido até que a pessoa de bem seja novamente liberada a novos assaltantes?
Mais tarde, na delegacia onde fizemos o boletim de ocorrência, o inspetor Fred nos mostrou uma pasta "cheia de vagabundo" [sic]. Ele catava milho no teclado barulhento de um computador velho enquanto olhávamos dezenas de fotos para tentar reconhecer o assaltante.
"Tá tudo por aí na rua, ó", explicou o inspetor. "A Justiça é fraca. Acha mais fácil deixar eles soltos. Falta de espaço nas prisões". Nas páginas do álbum de figurinhas macabro havia crianças ("As vezes nem é menor, só parece. Subnutrição"), adultos, homens e mulheres. Gente de todo o tipo. Gente cujo rosto não me inspiraria qualquer desconfiança se não estivesse ali, fichado. E não falo somente de ladrões de bicicleta.
Fora do álbum, ainda não registradas, centenas que saem por aí brandindo revólveres e cacos de vidro como meio de vida, por escolha ou necessidade. Cacos de vidro, moda mais antiga que a das bicicletas. Dois dias depois, escapei de um approach feito com meia garrafa quebrada de refrigerante, no centro da cidade. Neste caso, o assalto do domingo serviu pra alguma coisa: a paranóia me indicou que era melhor correr quando um trio se aproximou de mim na calçada. Consegui atravessar a rua ilesa e entrar num boteco, de onde vi o casal de desconhecidos que caminhava ao meu lado ser atacado. Os guris estavam armados com cacos de vidro. Eram crianças, com um adolescente no comando; estavam brincando com um carrinho de madeira segundos antes de partirem pro ataque.
Só não digo que está tudo perdido no Rio por conta da noite anterior ao assalto: eu havia subido a Tavares Bastos, no Catete, para assistir a um show d'Os Subterrâneos no The Maze Inn, hotel na favela que aos sábados costuma ter bandas indies e jazz de primeira. Antes de o som começar, dei umas voltas pelas ruelas do morro, tomei cerveja e fiquei embasbacada com a vista lá de cima. Depois do show, uma Kombi levou a mim e meus amigos, de graça, até a rua do Catete, e caminhamos pelo bairro até encontrar um restaurante aberto. Tudo na paz.